Editado o primeiro volume do diário inédito de Mário Dionísio

Escrito por em 07/06/2021

Um diário inédito do escritor, crítico, pintor e professor Mário Dionísio, intitulado “Passageiro clandestino I”, foi publicado pela Casa da Achada em abril, estando apenas disponível em cerca de dezena e meia de livrarias, devido à escassa tiragem e distribuição.

Este primeiro volume do diário inédito de Mário Dionísio centra-se no seu período de vida entre 1950 e 1957 e inclui uma introdução da filha, Eduarda Dionísio, bem como índice de nomes e assuntos.

Numa nota introdutória de Mário Dionísio (1916-1993), datada de 1977, o escritor confessa que “contra o que alguma vez poderia ter imaginado”, pensava então “publicar o ‘Passageiro Clandestino’”, mas não como se encontrava, determinando que fosse todo “revisto (reescrito)”.

O artista admitia não saber quando poderia começar a “fazê-lo sistematicamente” e determinava que se entretanto morresse – razão por que escrevia aquelas palavras -, o livro deveria “ficar inédito”.

“Ressalvo, porém, uma hipótese. Alguns dos ‘dias’ de ambos os volumes já foram revistos e têm a forma aproximada de que viriam a revestir-se no estado final. Se acaso se vir algum interesse nisso (para o conhecimento da época ou qualquer outro), poderei então admitir a publicação de uma pequena antologia, com a expressa indicação de que o é. Este ‘se’ refere-se, evidentemente, à Maria e a um ou dois amigos, suficientemente exigentes, que a queiram ajudar nesse trabalho de escolha e decisão”, acrescentou.

Numa nota adicionada à mão, em março de 1986, Mário Dionísio escrevia que “já que nenhum destes possíveis amigos se encontra vivo (…) a tarefa caberá à Maria, à Eduarda”. Em declarações à jornalista Ana Leiria, da Lusa, a filha de Mário Dionísio confirmou que todo o diário é inédito, embora já tivessem sido usadas algumas páginas, em textos e sessões sobre Mário Dionísio, incluindo no Congresso Internacional de 2016.

“O original estava acessível ao público desde 1996. O espólio está todo acessível a partir de 2009, no Centro de Documentação da Casa da Achada-Centro Mário Dionísio e repertoriado na ‘net’ (incluindo ‘Passageiro Clandestino’, volume publicado e volumes a publicar)”, acrescentou a também escritora e dramaturga.

Nas notas a esta edição, Eduarda Dionísio confessa que “não foi fácil decidir publicar este livro”, um texto que não é nem pretende ser “literatura”, já que é o próprio autor que afirma: “Todas estas páginas são mal escritas. Se o não fossem, trairiam a intenção. Quero ver-me ao espelho despenteado e sem gravata, de tal modo me surpreendo quando me encontro, na rua, por acaso, no vidro duma montra ou no espelho dum estabelecimento”.

Imbuída da tarefa – por desejo expresso e escrito do pai – de organizar o seu espólio, Maria Eduarda conta que foi “adiando”, por se sentir “pouco inclinada para as coisas chamadas ‘íntimas’ e ‘privadas’”.

A este propósito, a escritora chama a atenção para algumas frases de Mário Dionísio constantes no texto agora publicado, e que reproduz nas suas notas: “um diário é um testemunho enganador”(p. 40); “receio que um diário seja indispensável e receio que seja prejudicial” (p. 109); “Não posso dominar o meu desprezo por esses diários ‘íntimos’ que certos escritores em dado momento trabalham com o pensamento no público a que os destinam” (p. 148).

“O que agora começa a ser publicado não é, como Mário Dionísio tinha chegado a pensar, se feito por outros, uma ‘antologia’ do seu diário, mas também não será a totalidade do que ele foi escrevendo como diário entre 1950 e 1989. Mas foram-se indicando os assuntos das poucas passagens omitidas, pensando sempre no que para o Autor seria importante conhecer ‘de fora’ e passados uns tempos”, explica.

Eduarda Dionísio esclarece ainda que inicialmente, tinha pensado que só se começaria a publicar “Passageiro Clandestino” quando estivesse todo transcrito e anotado, mas a “questão do tempo que corre depressa” levou-a a querer publicar este primeiro volume antes de os outros (já transcritos) estarem prontos.

Este primeiro volume de “Passageiro Clandestino” está como Mário Dionísio o deixou, e o mesmo acontecerá com o volume II (1959-1964) e o volume III (1971-1974), que termina com o 25 de Abril.

No caso destes dois volumes seguintes, foram incluídos apontamentos de viagens, nomeadamente uma ida a Paris, entre dezembro de 1966 e janeiro de 1967, para ver uma grande exposição de Picasso, uma ida a Genebra para participar nos Encontros Internacionais de Genebra (setembro de 1967), e, no Volume III, a viagem de férias a Itália (agosto de 1973).

“Passageiro Clandestino I”, de Mário Dionísio, foi editado em abril deste ano e lançado no dia 25 de Abril, com uma tiragem de 500 exemplares, que podem ser adquiridos separadamente, sem as notas.

No entanto, foram também editados 300 exemplares de “Notas a Passageiro Clandestino I”, da autoria de Eduarda Dionísio. A cadeia de distribuição das publicações da Casa da Achada é reduzida, pelo que não é fácil encontrar o livro à venda em livrarias, mas pode sempre ser adquirido através do site da Casa da Achada.

De acordo com o próprio Centro Mário Dionísio (centromariodionisio.org) as edições da Casa da Achada estão disponíveis nas livrarias Centésima Página, em Braga, Gato Vadio e Utopia, no Porto, Lápis de Memórias e Livraria do Teatro da Cerca de S. Bernardo, em Coimbra, no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, nas livrarias Leituria, Ler Devagar, Letra Livre, Linha de Sombra (Cinemateca), Férin, Palavra de Viajante e Tigre de Papel, em Lisboa, na Fonte de Letras, em Évora, e em A das Artes, em Sines, além da própria Casa da Achada.


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