Let it Bleed

Escrito por em 25/04/2021

«Let it Bleed
Well, we all need someone we can bleed on»

Começo com uma declaração de interesses: É bem provável que os Stones e os Beatles sejam as duas bandas que mais ouvi até hoje. Em plena adolescência, para além das inúmeras horas dedicadas na descoberta de álbuns, fui ouvindo inúmeras vezes a afirmação de que os Stones tinham sido muito mais revolucionários do que os Beatles. Não sei se algum dia, alguém poderá afirmar com rigor de que os Beatles não foram revolucionários (até porque o foram necessariamente), mas em inúmeros aspectos, talvez o tenham sido mesmo, mas numa expressão infinitamente mais pálida do que os Stones. Por exemplo, jamais escreveriam uma canção como «Let it Bleed», como avaliaremos mais à frente. E não deixa de ser curioso para mim, que os dois discos que mais gosto das duas bandas sejam precisamente do ano de 1969, respectivamente Abbey Road dos Beatles e o que trago aqui hoje.

Os Stones traçaram sempre esse extraordinário mapa de espiritualidade e sexualidade no Rock and Roll e a sua atitude quase de anti-heróis, fez com que se apropriassem da imagem idílica que qualquer banda ou músico aspirante do Rock and Roll, quisesse perseguir. Ainda assim, reconheço que, é muito difícil escrever, por mais que se tente, uma crónica sobre o disco «Let it Bleed» dos The Rolling Stones e não se pensar imediatamente na banda de Liverpool dos Fab Four. Eu diria até, que mais depressa pensamos também nos Beatles quando estamos no universo dos Stones do que o contrário. E como não?

Falar das duas bandas inglesas é falar da década mais criativa e original da história da música anglo-saxónica. Aliás é falar da década mais importante da história da música, ponto final parágrafo. Ethan Russel, “contava-nos” em 2019, a propósito do 50th aniversário deste disco dos Deuses, que o título Let it Bleed dos Stones vinha em linha com o que os Beatles faziam à época. E é completamente impossível não pensarmos em Let it Be dos Beatles. Apesar de ter sido lançado mais tarde, as sessões do projecto Get Back dos Beatles foram criadas no inverno (Janeiro) de 1969, Let it Bleed é lançado no final do ano, mais precisamente a 4 de Dezembro de 1969. É óbvio, até pela proximidade dos membros da banda, que Jagger sabia da canção de Paul McCartney. Mas esta resposta-paródia (Let it Bleed) era tão derretida e assombrosa na intenção de devolver o que quer que fosse, em termos de persecução de uma banda em relação à outra, que o que aqui vale mesmo é mergulhar nas diferenças claríssimas do rumo das duas bandas. E se na verdade uma canção como Let it Be só poderia sair da cabeça de Paul, bem expressiva da atitude do líder criativo (com muitos gostam de afirmar) da banda de Liverpool, também não deixa de ser claro que um “Let it bleed” só poderia sair da de Jagger. Aliás já é tempo de reclamar que para além de Mick ser talvez o frontman mais importante da história da música, é também um cantor dos diabos, um grande instrumentista na sua engenhosa harmónica blues, como também um dos letristas centrais do século XX. Veja-se por exemplo a importância da letra «Satisfaction», que a par de «Like a Rolling Stone» de Dylan e «Imagine» de Lennon, é seguramente uma das canções mais interessantes do século XX.

Outra vinheta curiosa a propósito das duas gigantes da música inglesa, se Paul McCartney afirmou por alturas de «Beatles Anthology» que na faixa «A Day in Life» de Sgt. Peppers de 1967, John e ele cantavam pela primeira vez numa canção de Rock and Roll as palavras “I love to turn you on”, então o que dizer de Jagger e Richards com a canção Let it Bleed e uns versos a falar de cocaína e outros a dizer o sumptuoso: “Get it on ryder, you can come all over me”? Os mesmos que no anterior (1968) escreveram uma canção com mais de 6 minutos chamada “Sympathy for the Devil”, em que o ouvinte para além da ousada prosápia da interpelação do Diabo, sai com a sinopsia sensação de uma música que cheira a fedor dos cadáveres em decomposição. Este tipo de abordagem semeou algo de pioneiro e inovador na música dos anos 1960, muito por causa da atitude revolucionária que os Stones sempre tiveram. Numa era em que estrelas Rock eram presas em catadupa por posse de Droga, entenda-se em Inglaterra, algumas destas heresias dos Stones não faziam propriamente as deliciais das famílias tradicionais Londrinas. Há imensos relatos de pessoas que ligavam a protestar para as Rádios Britânicas.

Mas o recompensador é recordarmos aqui, 52 anos volvidos, que Let it Bleed de 1969 é um disco que nos ajuda a perceber porque é que os Stones definiram, juntamente com a banda de Liverpool, não só uma boa parte do som de toda uma década, como triunfaram a selá-la. Mas a coisa não ficou só por aqui. O próprio Jagger confessou numa entrevista em 1995 que: Let it Bleed é um estudo ao Apocalypse, um auto-retrato perfeito dos loucos anos 1960 e o primeiro grande disco da década seguinte. Ou seja, percebemos o ponto de partida para o que viriam a ser os anos 1970.

Este álbum faz parte daquele que é considerado, pela critica especializada, o período mais criativo da banda. Um quarteto de discos seguidos de estúdio, absolutamente extraordinárias, iniciados em 1968 por «Beggars Banquet», continuado no ano seguinte por este «Let it Bleed» 1969, «Sticky Fingers» de 1971 e o unânime «Exile on Main Street» de 1972. Não por coincidência foi o período em que a banda iniciou a colaboração com o produtor Jimmy Miller. E que fulgurante colaboração. A partir daqui, já só passará haver (bons) discos dos Stones, como «Tattoo You» em 1981, para mim, o último grande representante nesta categoria. Do quarteto mágico, de discos da banda, sempre fui um incondicional fã de Let it Bleed de 1969. Desta safra nasceram «Honky Tonk Women» que “só” é a canção favorita (dos Stones) de John Lennon, a genial «Gimme Shelter», a elegíaca «You Can´t always get what you want» do melhor que poderemos ouvir deles. Até «Brown Sugar» que surgiria mais tarde em «Sticky Fingers» começou a ser criado neste período.

Mas este último disco da banda na década de 1960, teve não só o apelo do público como da critica. À época em Inglaterra, ultrapassou por exemplo o aclamado «Abbey Road» em número de vendas. Mas se em 1969 «Abbey Road» foi a derradeira tentativa de Paul para salvar os Beatles e poucos poderiam prever a origem de outra obra prima da banda mais celebrada de sempre, também «Let it Bleed» foi um disco de transição e tinha tudo para não resultar. Brian Jones já lá não estava propriamente e Mick Taylor ainda não tinha entrado completamente. Aliás quando as gravações do disco começaram no final de 1968, Brian já estava tão mergulhado nos abismos do LSD que faltou a boa parte das gravações. Escutando-se aqui e ali pequenas contribuições como a inesquecível auto-harp em «You got the Silver», salvo erro, a última gravação sua com a banda, ou por exemplo, o tema gravado no final do ano anterior e que seria a primeira faixa feita para este disco e que finalizaria o álbum, o lindíssimo “You can´t always get what you want”. A London Bach Choir e Madelaine Bell, Doris Troy e Nanette Newman fazem do sonho megalonomo de Jagger – realidade.

Brian, membro fundador da banda, já havia sido despedido, apenas a uns meses da sua morte, neste mesmo fatídico ano de 1969. Cada vez mais ostracizado pelos líderes Jagger e Richards, Brian, foi perdendo protagonismo na banda ao ponto de ser incapaz de assegurar uma direcção na guitarra, para banda se sentir confiante em Palco. Essa foi das principais razões para os Stones deixarem de se apresentarem em palco. Jagger chegou mesmo a considerar, nesse ano, que muito provavelmente não poderiam continuar como banda. E, no entanto, aí estão eles mais de 50 anos passados.

Quando Mick Taylor entrou na banda, para algumas gravações de «Let it Bleed», com os seus tenros 20 anos, Keith e os próprios Stones entraram pela primeira vez para um outro patamar enquanto banda. Prodigioso guitarrista, Taylor, continua a ser o melhor guitarrista que os Stones tiveram ou poderiam ter. A história da música está cheia de exemplos penosos de como é difícil conjugar, bem, duas guitarras numa banda de Rock and Roll, por forma a servir sempre o melhor na construção de uma canção. Keith, com a entrada de Mick Taylor consegue não só evoluir no som e originalidade do instrumento guitarra na banda, aproximando outra vez das raízes do Blues, R&B e Country , como tem mais liberdade criativa para outros voos musicais, assegurado que estava com a Lead Guitar de Taylor. Ao invés de competirem nos primeiros tempos, Keith e Mick Taylor acabam por proporcionar, num período compreendido entre 1969 a 1974, alguns dos melhores momentos de sempre da banda. Talvez não seja por acaso que dos 4 grande discos de que falávamos no início, Taylor está presente em 3 e nos 3 melhores.

Todo o disco «Let it Bleed» é escrito por Mick Jagger e Keith Richards, excepção feita do tema «Love in Vain» escrita nos anos 1930 pela lenda dos Blues, Robert Johnson. Era a homenagem de Mick e Keith à sua paixão pelo Delta Blues. Numa era em que ainda era determinante o tema de abertura de um disco, «Let it Bleed» começa com aquela que é considerada por muitos uma das melhores melodias saída da cabeça da parceria Mick Jagger & Keith Richards – Gimme Shelter. Aliás o disco começa antes, com o assinalar da expressão: This Record should be played Loud. Ouve-se também em «Gimme…» a voz Mary Clayton, que encaixa com graciosidade na atmosfera de umas das grandes canções escritas sobre o medo.

É interessante olhar para a faixa n º4, o tema «Live with me», porque seria a primeira contribuição de Mick Taylor para os Stones. Logo ali percebe-se que a banda ganharia uma outra força, quando se apresentasse ao vivo. E passados 3 anos, este seria o regresso de uma Tour nos Estados Unidos. Até Ry Cooder surge em “Love in Vain”. Como considerou Sam Sutherland «A presença de Cooder apenas indica a influência do virtuoso californiano nos Stones: além de apresentar Richards à afinação G aberta, crucial para “Gimme Shelter” e outros riffs de guitarra de Richards, a figura icônica da guitarra que domina “Honky Tonk Women”, gravada durante as sessões Let It Bleed são abertamente modeladas no estilo ousado de Cooder.»

Podíamos ter começado este texto a dizer que é o disco de «Gimmie Shelter» e «You can´t always get what you want» e já seria dos discos mais celebrados de qualquer lista dos discos essenciais do Rock. Este disco tem momentos em que os Stones reinventam o Blues no contexto do Rock and Roll e até se atrevem a um estilo mais Hard-rock como em «Monkey Man» que abriu porta para algum do som que iriamos ouvir dois anos depois em «Sticky Fingers».

Há tantos motivos de interesse, desde a força das canções, às contribuições de músicos como Nicky Hopkins, que é uma delícia no Piano. Bob Keys começava aqui uma das mais ricas contribuições para a história da banda, musicalmente falando. Em «Live with me» abre-nos o apetite para o que há de acontecer ainda mais a sério em Brown Sugar ou Exile on Main Street por inteiro.

O tema título «Let it Bleed» começa como uma Jam Session. Mas só o Piano de Ian Stewart ou a lindíssima guitarra de Keith, tornariam a música interessante. Mas amarrados na batida carismática de Charlie Watts, Jagger agarrou-se às palavras mais sexualmente explicitas do cancioneiro dos Stones, para tornar de «Let it Bleed» uma das peças mais interessantes do Rock. Para quem vive familiarizado com a obra de um dos mais interessantes intérpretes do século XX em todas as línguas – o Brasileiro Caetano Veloso, sabe que o Baiano é fã confesso dos Beatles. A influência dos Fab Four foi tanta em sua obra, que Caetano lhes prestou homenagem no seu consagrado disco «Qualquer Coisa» gravado em 1974 e lançado em 1975, gravando 3 músicas dos Beatles. Até a capa do álbum é piscar de olho a «Let it Be». Curiosamente a única gravação de Caetano Veloso de uma canção dos Rolling Stones é justamente Let it Bleed. Talvez valha a pena, realmente, começar por aí.

Tiago Pereira da Silva


Opnião dos Leitores

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