Trienal apela a um olhar “mais humano” sobre a Terra

Escrito por em 04/04/2021

Os curadores da próxima Trienal de Arquitetura de Lisboa estão a preparar um encontro de perfil multicultural e de apelo à ação sobre a Terra, com um olhar “mais humano”, para além da sustentabilidade, que chegue a toda a sociedade.

“Será um momento de reflexão, mas também de ação. Já há muita teoria desenvolvida sobre os recursos da Terra e a sustentabilidade. Este é o momento de concretizar coisas e de ir além disso”, defendem os arquitetos Cristina Veríssimo e Diogo Burnay, curadores do evento dedicado à arquitetura contemporânea, em entrevista à jornalista Ana Goulão, da Lusa.

A 6.ª Trienal de Arquitetura de Lisboa vai decorrer de outubro a dezembro de 2022, com a “Terra” como tema central, nos seus diferentes significados, consoante a escala e o observador, desde o território e da urbe, à paisagem, ao lugar de pertença ou a um continente visto do mar, segundo os traços gerais do conceito.

Cristina Veríssimo explicou que a mensagem essencial contida no tema da “Terra” – “a palavra não vai ser traduzida para o inglês porque tem significados muito profundos em português, que as línguas latinas perceberão” – será dirigida não só aos arquitetos, mas também à população em geral.

“Neste tempo de pandemia e na futura pós-pandemia, é um momento de olhar para a frente, e com outros olhos, mais humanos, pensando na Terra como lugar onde pertencemos, e com a qual nós construímos”, salientou, defendendo que “a arquitetura tem um papel fundamental para criar uma mensagem” para a sociedade, em grande medida porque está ligada à construção.

Num contexto de alterações climáticas, pressão sobre os recursos e desigualdades socioeconómicas e ambientais, Cristina Veríssimo lembrou a responsabilidade da arquitetura, “uma das atividades humanas que mais recursos gasta, no planeta, devido à construção, e também que mais transforma a vida das pessoas”.

Por essas razões essenciais, “a palavra Terra vai ser usada na Trienal com o intuito de chegar a todos e de ser para todos”, salientou a arquiteta, investigadora e docente, que já colaborou com nomes como João Luís Carrilho da Graça e Zaha Hadid.

A proposta da dupla de curadores é clara e vai no sentido de uma intenção de ação na arquitetura e na sociedade, propondo a mudança de um modelo de sistema fragmentado e linear, caracterizado pelo uso excessivo de recursos, para um modelo de sistema circular e holístico, motivado por um maior e mais profundo equilíbrio entre comunidades, recursos e processos.

“Esta ideia da sustentabilidade está na ordem do dia, mas já passámos além disso. Não é só sustentar, mas saber como fazemos melhor. Já não é só colocar pensos, é tratar das coisas e passar à ação”, reiterou a arquiteta à Lusa.

Sendo o tema da Terra muito vasto, a dupla responsável pela curadoria geral da 6.ª edição da Trienal de Arquitetura de Lisboa pretende concentrar-se “no sentido mais humano ligado à arquitetura”, opção que se manifestará nas quatro exposições do programa, que ainda incluirá quatro publicações, três prémios, três dias de conferências, e uma seleção de projetos associados independentes.

Para as exposições, a dupla de curadores convidou especialistas com “perspetivas multiculturais, de várias partes do mundo” para explorar como os paradigmas recentes estão a mudar a perceção de criação de lugares num planeta globalizado.

“Exatamente devido ao momento que estamos a atravessar, considerámos muito importante trazer a Lisboa um conjunto de olhares diversos. Há muito conhecimento, e pode ser partilhado na Trienal de forma holística, a mesma que deve ser usada para pensar o planeta, a sua construção, nas várias escalas”, salientou o arquiteto Diogo Burnay.

Nesse sentido, os curadores optaram por trazer vozes alternativas, convidando especialistas de várias áreas, nomeadamente Anastassia Smirnova (Rússia/ Holanda), Loreta Castro Reguera e Jose Pablo Ambrosi (México), Pamela Prado e Pedro Ignacio Alonso (Chile), Tau Tavengwa (Zimbabué/ Reino Unido) e Vyjayanthi Rao (Índia/Estados Unidos), para a curadoria das exposições.

A exposição “Visionárias”, na Culturgest, terá curadoria de Anastassia Smirnova com o gabinete SVESMI, curador de um projeto pan-europeu ‘online’ sobre o futuro da arquitetura; “Multiplicidade” terá lugar no Museu Nacional de Arte Contemporânea, com curadoria de Tau Tavengwa e Vyjayanthi Rao; “Ciclos”, na Garagem Sul – Centro Cultural de Belém, terá curadoria de Pamela Prado e Pedro Ignacio Alonso; e “Comum pelo Desenho” terá lugar no Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia (MAAT), com curadoria de José Pablo Ambrosi e Loreta Castro Reguera.

O curador destacou também como essenciais as questões da utilização dos recursos, e dos “processos e formas de fazer” em arquitetura e na construção, sempre com base na palavra-chave Terra, totalmente ligada “à sobrevivência do planeta”, no seu conceito mais amplo.

Questionado pela Lusa sobre o impacto da pandemia na arquitetura, Diogo Burnay antevê que “surgirão alterações na forma de habitar os espaços, com maior flexibilidade, não só na casa, como no espaço público, o qual foi invadido, em resposta à necessidade de evitar locais fechados”.

“A importância do espaço público como local de encontro vai certamente ser reforçada”, antecipa, apontando que as cidades já estão em grande mudança, com o reforço das ciclovias, exemplo de um caminho de mudança do paradigma de modelos de crescimento linear das ‘cidades-máquina’, para modelos de desenvolvimento circular das ‘cidades-organismo’.

Juntos, Cristina Veríssimo e Diogo Burnay fundaram, em 1999 o atelier CVDB, em Lisboa, e o seu trabalho tem sido reconhecido e premiado em projetos como o Museu do Tapete de Arraiolos e o Museu do Megalitismo de Mora, no Alentejo, e a Escola Secundária Braamcamp Freire, na Pontinha, na região de Lisboa.

O programa de exposições será ainda o ponto de partida para o programa de conferências “Talk Talk Talk” que, durante três dias, reunirá uma série de protagonistas do panorama internacional da arquitetura na Fundação Calouste Gulbenkian.

As quatro exposições são coproduzidas com a Fundação Caixa Geral de Depósitos/Culturgest, a Fundação Centro Cultural de Belém/ Garagem Sul – Centro Cultural de Belém (CCB), a Fundação EDP/ Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia (MAAT), e a Fundação Millennium bcp com o Museu Nacional de Arte Contemporânea (MNAC).

Como nas edições anteriores, estão também previstos os Prémios Carreira Millennium bcp, Début e Universidades, abarcando diferentes estágios da carreira de profissionais de arquitetura.

O Prémio Universidades passa a ter dois níveis de participação: um pelos estudantes de mestrado das faculdades, outro pelos centros de investigação, propondo quatro possíveis temáticas relacionadas com as exposições centrais. O regulamento será lançado no próximo mês de junho.


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