Clara Andermatt cria homenagem a Orlando Pantera

Escrito por em 20/02/2021

A coreógrafa Clara Andermatt, cuja companhia de dança celebra 30 anos, está a criar um grande espetáculo de homenagem ao músico cabo-verdiano Orlando Pantera, uma “figura marcante” pela forma como trabalhou e divulgou as raízes culturais do seu país.

Orlando “Pantera” Barreto (1967-2001) foi um dos criadores que também marcou o percurso da Companhia Clara Andermatt, quando manteve uma “ligação especial” com Cabo Verde, simbolizada neste ‘cantautor’ que a coreógrafa decidiu homenagear, em colaboração com o músico João Lucas e a cantora Mayra Andrade, com estreia prevista para 2022.

A nova peça irá evocar o trabalho de “um músico promissor que influenciou uma geração de muitos cantores da cultura cabo-verdiana, pela forma como contava as histórias do seu povo, inspirando-se nas raízes culturais e musicais, adaptando-as de uma forma contemporânea muito bonita e intensa”, descreveu Clara Andermatt, em entrevista à jornalista Ana Goulão, da Lusa.

Orlando Monteiro Barreto, mais conhecido como Orlando Pantera, músico, cantor e compositor cabo-verdiano assinou, com João Lucas, a banda sonora do espetáculo “Dan Dau” (1999), da companhia de Clara Andermatt, numa colaboração renovada pouco depois, em “Uma História da Dúvida”.

Também escreveu músicas para alguns trabalhos da companhia de dança cabo-verdiana Raiz di Polon, fez parte dos grupos musicais Pentágono, Quinteto Capeverdeans Jazz Band, Arkor e, em 2000, venceu o Prémio de “Revelação” no Festival Sete Sóis Sete Luas, na ilha de Santo Antão, um ano antes de morrer, com apenas 33 anos, vítima de uma pancreatite aguda, quando se preparava para gravar o seu primeiro álbum, “Lapidu na bô”.

O espetáculo de homenagem, que Clara Andermatt espera apresentar em março de 2022 no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, “exige uma grande preparação, porque é um projeto com algum peso, e bastantes colaboradores”, disse, a propósito da evocação de um criador cujas músicas continuam a ser cantadas por nomes como Lura, Mayra Andrade, Voginha e Leonel Almeida.

A trabalhar em contexto de pandemia, Clara Andermatt tem enfrentado dificuldades e incerteza, como todos os profissionais do setor da cultura e os seus criadores, que cada vez mais se movem para o mundo virtual.

A coreógrafa, nascida em Lisboa, em 1963, que começou por estudar dança com a mãe, Luna Andermatt, com apenas três anos, continua a ocupar-se com este novo e outros projetos que estavam em curso, em 2020, e tiveram de ser reagendados para 2021, nomeadamente a nova peça para a Companhia Nacional de Bailado, “O Canto do Cisne”, remarcada para junho.

“Estamos todos no mesmo barco, a criar coisas ‘online’ e a lidar com reagendamentos sucessivos”, comentou, também a propósito do projeto Lab InDança que desenvolve em parceria com a autarquia de Santa Maria da Feira, distrito de Aveiro, no âmbito do PARTIS – Práticas Artísticas para a Inclusão Social, iniciativa da Fundação Calouste Gulbenkian, com pessoas portadoras de deficiência e bailarinos profissionais, que está a tentar redesenhar em vídeo.

São “tempos de grande imprevisibilidade, em constante mudança e readaptação”, comenta a criadora, que não trabalha com um grupo fixo de bailarinos, mas possui uma estrutura de produção da companhia, subsidiada pelo Ministério da Cultura, através da Direção-Geral das Artes, que também disponibilizou apoio para a criação do novo sítio ‘online’ desta estrutura.

A pensar na celebração dos 30 anos de vida, Clara Andermatt tem-se dedicado a selecionar peças da sua autoria – entre mais de 60, desde que assinou “En-Fim”, em 1989, coreografia que lhe valeu o início do reconhecimento como uma das vozes mais originais da dança portuguesa – para o arquivo do sítio.

Clara Andermatt tem uma história pessoal na dança começada sob as orientações da mãe, a que se sucederam os estudos no London Studio Centre e na Royal Academy of Dancing, na capital britânica, antes de uma passagem pelos Estados Unidos.

“Tentei sempre dar voz às minhas ideias, ser espontânea e fazer um caminho interior, que me foi devolvendo conhecimento, e acabou por ser atribulado por escolha própria”, recordou, sobre um percurso de trabalho que também regista, entre 1984 e 1988, a Companhia de Dança de Lisboa, dirigida por Rui Horta, seguindo-se, entre 1989 e 1991, a Companhia Metros, em Barcelona, Espanha, com direção de Ramón Oller.

Com companhia própria desde 1991, Clara Andermatt criou e produziu numerosas obras, entre as quais “Dançar Cabo Verde” (1994), “Anomalias Magnéticas” (1995), “Cemitério Dos Prazeres” (1996), “Natural” (2005), “Hot Spot” (2006), “E Dançaram Para Sempre” (2007), “Meu Céu” (2008), “Void” (2009) e “Fica no Singelo” (2013).

A bailarina e coreógrafa recorda ainda, ao longo das três décadas, um caminho feito de “prémios que deram incentivos, parcerias na dança e na música, viagens por muitas culturas”, influências vertidas no arquivo que está a criar para o novo ‘site’, e que “ficará como instrumento de divulgação, para uso dos programadores, e das novas gerações de bailarinos e coreógrafos”.


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