Black is Beautiful…

Escrito por em 11/02/2021

Black is Beautiful…
and The New American Songbook

Quando ouvir música se transforma também num exercício de combate político

Imagine por um segundo que nenhum negro tinha sido levado do continente Africano durante a colonização Europeia, para o chamado Novo Mundo. E conceba também que os negros que povoaram o Sul dos EUA para trabalhar desumanamente nas plantações de Algodão, durante o século XVIII e XIX, jamais haviam criado formas de expressão cultural como o Blues, aquilo que muitas vezes se associou como um manifesto catártico para aliviar todo aquele sofrimento imposto por mãos brancas. É provável que uma passagem maravilhosa do documentário «Blues» realizado e produzido por Martin Scorsese (entre outros cineastas) nos ajude a compreender melhor este sentimento e o quão fundo pode tocar a audição de uma canção de Blues: “é que a raiz que dá origem ao Blues é tão profunda, mas tão profunda, que a árvore enorme que dela brota não tem sombra”.

Olhando atentamente para o panorama musical de todo o continente Americano, somos de facto transportados, para a ideia credível de que o bem mais precioso talvez tenha vindo mesmo das Naus dos escravos. Desse embriãozinho trazido da África. Ali residia a semente, que daria já em solo Americano, o ambiente propicio para o nascimento de algumas das manifestações culturais mais ricas produzidas pelo Homem: Blues, Jazz, Soul, Rock and Roll e o Gospel. Tudo oriundo da inteligência e originalidade negra Anglo-Americana.

Agora tente também imaginar o mundo, tal qual como o conhece, sem a música de: Stevie Wonder, Ray Charles, Sam Cooke, Otis Reding, Charlie Parker, Aretha Franklin, Bessie Smith, Louis Amstrong, Billie Holiday, Miles Davis, Jimi Hendrix, Marvin Gaye, Duke Ellington, Chuck Berry, BB King, Ella Fitzgerald, Muddy Watters, Nina Simone, Nat King Cole – só para citar alguns… Fica naturalmente difícil.

Afro-americanos: Querem lhes chamar assim? Então que seja como uma espécie de selo de qualidade. Como ADN criativo ou qualquer coisa do género. Tal como pensamos em tecnologia e lembramo-nos de Israel. Ou grandes físicos e matemáticos e pensamos na Alemanha dos anos 20 e 30 ou na Índia deste passar de século. O termo Afro-americano tem de nos dar essa marca-sinónimo de criatividade: terno, sofisticado e melancólico. No meio da desconstrução de um continente onde viviam os povos Ameríndios, a chegada dos Europeus (responsáveis maiores por virarem tudo do avesso) trouxe entre outras coisas a expansão das línguas e esse descobrimento da África fora dela.

Caetano Veloso disse certa vez que: “em nenhum outro lugar do mundo a reunião entre a música e a poesia se dá de forma tão intensamente interessante como no Estados Unidos, Brasil e Cuba”. Eu acrescentaria também bem ao jeito de sua «Verdade Tropical» que a mais eficiente arma de afirmação da língua inglesa no mundo vem com a música anglo-saxónica, que teve um gigantesco impacto no desenvolvimento da história do século XX nas suas várias dimensões sociais.

Em pleno Séc. XXI Jon Batiste é um autêntico manifesto à história da música negra norte Americana. O que será quase o equivalente a dizer a toda a música Americana quase sem excepção (Jazz, Blues, Soul, Rock and Roll e Gospel). Tudo o que tributa do passado, Batiste transita para as próximas gerações numa espécie de «apelo para acção», em que o acto de ouvir música pode também ele se transformar numa assertiva manifestação política, ou pelo menos numa inevitável consciência cívica, de uma América mergulhada na ressaca de Trump e de George Floyd. Talvez até como o próprio descreveu: «uma marcha em busca da verdade e da justiça». Jon, sublinhava o papel decisivo que tiveram todos estes artistas Afro-americanos (alguns deles em cima citados) com um som absolutamente inovador que deixou uma marca profunda, não só na América mas também no mundo:

– «independentemente do tamanho da opressão e a horrível marginalização a que estavam sujeitos, fizeram algo divino, conseguiram tocar pessoas em toda parte criando uma sensação de “cura” e aproximando as pessoas». Reconhece que muitos deles tiveram de se “servir” de “máscaras” em palco para poder actuar, para poderem transmitir as suas ideias, cumprir as suas obrigações e os deveres familiares. Quando pensamos que por exemplo «Bird» chegou a tocar em casamentos para poder pagar as contas… E que talvez Sam Cooke tenha morrido mesmo às mãos do sistema repressivo social dos anos 60 Norte Americano. Batiste ainda nos diz: «Eu hoje em dia não preciso de usar máscara. Tudo o que eu faço não tem um pingo do sofrimento que houve, por exemplo, para eles. Por isso é que quando os toco estou de certa forma, sempre, a homenagear esses grandes artistas. Porque tornaram tudo possível para a minha geração».

O legado destes múltiplos artistas Afro-Americanos é tão arrebatador e definitivo que vai muito para além da música «Tudo o que nós aspirámos a ser enquanto nação, os valores que proclamámos e que quisemos por exemplo escrever na constituição, foram alcançados muitas vezes primeiramente através da música escrita por estes senhores». Jon Batiste inventa como que uma nova forma de olharmos para o aclamado «The Great American Songbook», como que lhe reclamando a sua óbvia negritude, em grande sua maioria ausente. Olhamos para Batiste e vemos a luta que travaram por exemplo Sam Cooke, Ray Charles ou Nina Simone.

«America the Beautiful» que Ray Charles cantou é uma dessas canções. A beleza da letra, cantada por um dos maiores interpretes do séc. XX reveste-se rapidamente de uma ácida ironia, em que nem tudo é exatamente o que a canção vai descrevendo, mas sim a América idealizada por Ray, onde encaixar as histórias de uma sociedade americana em tumulto social, será sempre inevitável no poder da sua interpretação. É um “museu de novidades”, ao que América das possibilidades poderia ser, onde uma espécie de apartheid cultural disfarçado, permitiu negar o que era inegável aos ouvidos e olhos de todos – que a grande força cultural do norte da América era maioritariamente de matriz negra.

Um critico musical da Mojo terá dito um dia: – “que há duas grandes categorias de cantores do mundo: os perfeitinhos e os pecadores”. Cantores perfeitos “fixar-se-iam” no poema e fariam com que, do seu necessário virtuosismo, sua voz se ajustasse ao que vai sendo cantado, respeitando os traços métricos de cada palavra. Ray Charles era exímio a inverter essa lógica, ou não fosse ele um dos mais belos pecadores de que há memória. O que ele cria também, são tempos, respirações, os silêncios dentro de cada sílaba, os arrastamentos de cada palavra (que para um simples cantor – será sempre impossível de reproduzir), transformando esse justo pecado em perfeição. A sua poesia vem desse lugar, não exactamente da letra. Por isso continuamos a sublinhar o legado irrepetível desta geração de geniais compositores, cantores e instrumentistas negros.

Mas deixem-me voltar a Sam Cooke. Se o leitor nunca ouviu as primeiras palavras cantadas, naquele que terá sido, para muitos, um dos mais arrebatadores hinos nacionais sobre o movimento dos direitos civis dos Afro-Americanos «A Change is gonna come», valerá muito a pena perceber essa simbiose perfeita entre voz e interpretação, composição e arranjos, tal como a própria letra da canção. Diga-se por ironia que Cooke nem chegou a vibrar do sucesso da sua canção. Entregue à missão de dar uma resposta cabal, através da música, ao racismo que via florescer todos os dias na sua América, Sam Cooke encontrou inspiração em “Blowin in the Wind” de Dylan, canção vincadamente de protesto que seria o alento para milhões de pessoas no mundo e que escrita em 1962 principiaria uma década que viria a ser de sonho para a música anglo-saxónica. Já não sei bem quem dizia, que o problema é que «A change is gonna come» ainda faz tanto sentido nos dias de hoje.

A sabedoria inquietantemente serena de Jon Batiste, fá-lo interpretar o seu legado afro-americano através da linguagem universal do Jazz. E sem querer ferir suscetibilidades: não há canção mais moderna e mais inventiva do que o Jazz! É sempre tudo novo. Mesmo quando se toca um velho clássico. A música para ele será sempre uma ponte para qualquer coisa. Ela tem esse poder, de guiar duas pessoas para um mesmo espaço e permanecerem juntas «É muito difícil odiarmos alguém, que está num mesmo quarto a dançar e a cantar». As interpretações de Jon Batiste carregam a tradição negra, levantando o véu obscuro de um passado sangrento construindo essa roupagem da celebração. Como ele nos diz: «por vezes, mesmo que esteja a tocar a solo, sinto tanta coisa cá dentro que é como se estivesse a convocar mais variáveis a contribuir para a canção».

Jon Batiste mexe no ritmo, no coração das canções que interpreta e aliás exige do ouvinte a atenção e o espírito adequado para perceber o calibre da América que canta. Eu habituei-me a ouvi-lo com a sofisticação que o Jazz invoca, mas com a consciência cívica e política como meta inatingível do que a América deveria ser. Oiça-se o que ele fez com os clássicos «St. James Infirmary Blues» ou «What a Wonderful World» celebrizadas por Louis Armstrong, tão contidas, mas com tanto propósito. É como se de repente eu habitasse a razão e fossemos obrigados a proclamar a negritude tão ausente do «The Great American Songbook».

Tiago Pereira da Silva

Jon Batiste na fotografia de capa.


Opnião dos Leitores

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