PodCartas #28 – Como se vive, todos os dias, perto do precipício?

Escrito por em 31/01/2021

 
Lisboa, 31 de janeiro de 2021,

Oi, dona Bárbara,

A inveja é uma coisa feia, mas eu senti. É branquinha, viu, mas ela passou por mim. Primeiro, da praia, do mar, do pé na areia, do sol, do pão de queijo. À vezes, no inverno, vou ver o mar, quando o sol começa a esquentar – ou nem esquenta nada e eu vou só olhar. Segundo, por teres uma história para contar, algo que fica difícil nos tempos atuais em que o país fechou portas de novo. No primeiro encerramento, fiquei em casa os dois meses, não vi se a cidade se movimentava ou não. Neste, tenho intercalado entre casa e escritório e apercebo-me o quanto preciso sair para contar. Nem que seja contar as pessoas que vagueiam e, depois, relatar ao mundo o que está a acontecer. O cenário por aqui é mau e é por isso que te pergunto: como se vive, todos os dias, perto do precipício?

Espero-te bem, é a frase que mais tenho escrito em pequenas trocas de comentários. Espero-te bem. Neste país, sossegadito, que vive desde sempre ali a roçar o limiar da pobreza, com a cabeça à tona e a água pelo pescoço, as tragédias globais pouco nos atingem. Acredito que sermos o povo do desenrascanço, palavra sem tradução, para veres como somos únicos, é a chave para não submergirmos. É um facto, para mim, desde que me lembro de ser gente. As guerras são lá longe, não nos fazem estremecer, e quando os ataques chegaram à Europa sediaram-se ali pelo centro, as doenças bizarras acontecem abaixo do Equador, a fome de pessoas pele e osso também, os fenómenos naturais desatadores gostam muito da América do Norte e da Ásia – por favor, continuem longe – os assassinatos em massa também é coisa de americanos ensandecidos – e o mais perto foi daqui foi na Noruega, que ainda é longe. Por cá acontecem coisas más, claro, mas pontuais, restritas a algum lugar, esporádicas. Pois que, de repente, o cenário muda e os nossos dias são passados a levar com 50 ambulâncias à espera num dos maiores hospitais do país, o número de mortos a rondarem, em média diária, 250, o oxigénio a esvair-se num dos periféricos, Lisboa no epicentro da desgraça portuguesa e uma pessoa a sentir-se num labirinto, a fintar, às escuras, a bicheza, os jornais televisivos a liquidificarem-se na falta de ar constante. Não estamos habituados a isto. Não sabemos lidar. Estamos perdidos. Parece-me que estamos a meio deste livro de terror e que não tarda, à boa maneira portuguesa, haverá um plot twist. Era hábito cortar o bife de faca e garfo enquanto as imagens passavam pedaços de casas destruídas, as ruínas de uma Damasco, de uma Alepo. Corpos dados às praias, de pessoas que corriam para a Europa civilizada. Coisas do Médio Oriente.

Ai que tragédia, a Humanidade está perdida! Por falar em tragédia, o meu chefe hoje estava impossível!,

diálogo imaginário numa qualquer casa portuguesa pré-pandemónio. Agora, andamos todos um bocado aflitos porque, afinal, as tragédias globais também podem passar por aqui. Há quem diga que estamos imunes a estes números galopantes, adjetivo roubado aos possantes equídeos e seus cascos, porque, é facto, os números vêm em manadas. Talvez estejamos. A bicheza atacou o andar de cima e uma pessoa continua a fazer a sua vida

No meio desse vendaval, dou por mim com energia acumulada de meses de abrandamento de vida laboral e social. Nem deveria pronunciar tal infâmia, mas sinto-me renovada. Se aguentei bem até ao final de 2020, já ao fim de um mês de 2021 começo a ficar sem espaço para a guardar num corpo que até minguou bastante. Apetece-me dançar como louca, com os braços desgovernados, as pernocas desengonçadas, possuída, rodopiar, rodopiar, rodopiar, uma “piona”! Usar a mão de um outro para passar por baixo do seu braço. Faço o que posso, fisicamente, confinada e deixo essa imagem mental invadir o meu cérebro. Lá, estou sem freio! Vamos ter, com certeza, pela frente os Loucos Anos 20 2.0, versão atualizada de 1.9. Essa energia acumulada também me fez ter saudades de ter umas borboletas dançantes e peregrinas no meu estômago, dirigir as atenções para alguém que não eu. Mas agora, qualquer um que esteja do outro lado pode ser um possível assassino. E de tanta energia acumulada, tenho pensado muito nos meus anos dos 9 aos 30. Até há pouco tempo, era uma pessoa do outro, vivia e precisava do exterior, dessa interação Ainda continuo um animal social, só que a loucura social só sucede a espaços…largos. Sucede que em conversas telefónicas com amigos tenho dito bastantes vezes:

Tivesse isto acontecido nos meus anos de adolescência ou nos 20, e já me tinha atirado da janela! Já pensaste o que era? Isto agora afeta-nos menos porque estamos nos 30, mais calmos, mas se fosse naquela altura, não sei como seria.

Isto para dizer que tenho pensado muito nestas pessoas cujo ímpeto normal é sair, conhecer, criar estruturas, e que lhes veem toldados os movimentos.

Até deixarmos todos de ser potenciais assassinos, penso no que mais quero fazer assim que nos derem ordem de soltura e isso é meio caminho andado para superar aquilo que na Idade Média chamaríamos as trevas.

Beijo Beijo,

Inês

PS: Não és a única a querer estrangular desmascarados. Estou contigo e não abro, vice?

Duas amigas, uma brasileira, outra portuguesa, decidiram fazer da carta o meio de comunicação, num ano que teima em ser diferente. Um ano em que não se podem encontrar fisicamente. Nas cartas, como antigamente, fala-se da vida por escrito. O que incomoda ou atormenta, o que faz feliz, indaga-se, mas, principalmente, partilha-se. A próxima ligação direta Rio-Lisboa é feita aqui.

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