Como desprestigiar a Democracia?

Escrito por em 27/01/2021

«Talvez tivesse feito melhor em agradecer ao diabo», pensei eu domingo à noite, ao ouvir André Ventura a proclamar “vitória” com a não adjetivável frase: «E devo confessar humildemente, que talvez tenha sido eu o escolhido por Deus para dar este rumo a Portugal». Os discursos teatrais de Ventura fazem-me sempre lembrar um líder de uma seita qualquer. Ou porque não, um daqueles pastores evangélicos que fizeram escola no Brasil. Mais seriamente ainda, recordam-me também a autobiografia daquele que foi o inimigo público nº 1 em França, Jacques Mesrine, naquele espírito de quem emerge na proposição: «cedo compreendi que só a violência tem a força da lei». Para o seu eleitor, ele será até no plano das palavras como que uma abstração disso mesmo, como se a violência do conteúdo do seu discurso, tivesse essa autoridade e força para ser lei. Já para não falar de que no plano teórico, daquilo que imaginaríamos serem as suas propostas leis a vigorar em Portugal, a acção do Estado se converteria numa brutal autoridade sobre os indivíduos e suas instituições.

Ele é folclore político o tempo todo. Na mesma eleição que considera que foi um dos grandes vencedores da noite – mas coloca o lugar à disposição. Consagrando-se como um projecto vencedor, mas que por seu lado ficou há quem dos 15% que desejava. Sabe que fala para uma tipologia de eleitor que na sua grande maioria está preocupada em odiar alguma coisa. Daqueles que conduziram as redes sociais a feiras de ódio e em tribunais virtuais de uma inquisição do século XXI. Em que «haters gonna be haters all the time». O eleitor Venturista não está preocupado em perceber que por exemplo a diversidade foi sempre o que nos fez evoluir enquanto espécie. Não está preocupado em ouvir o rigor da ciência, em pensar sobre as alterações climáticas, sobre princípios de igualdade. Talvez não estejam habituados, a grande maioria deles, a pensar de todo. E o mais preocupante é que Ventura sabe precisamente que o resultado das suas frases efeito tem exatamente essa missão – dispensar reflexão.

Para este tipo de público alvo, não parece ter lugar a celebre frase: “You can fool some people all the time, and all people sometimes, but you can’t fool all people all the time” atribuído quem sabe a Abraham Lincoln. Não adianta. Aliás, como não adianta recordar a esta gente que tal como escrevia Gregório Duvivier: «que de entre muitos presentes, que a Democracia nos deu» se encontra este, que é ter a liberdade de podermos falar mal de Portugal. E já faz quase 50 anos que se pode.

Se o resultado do passado Domingo é de alguma forma perturbador, era por outro expectável, sobretudo pela forma como foram correndo os últimos meses da política em Portugal. E até aqui, parece que não aprendemos nada com o que aconteceu no EUA e no Brasil: Uma esquerda e uns média obcecada com Ventura, que nos debates a dois (até na ausência do candidato do Chega) falavam obstinadamente sobre o Chegano. A verdade é que aqui estou eu também a falar do “coiso”. Continuo a ser daqueles que acredita, que não é fazendo propostas da ilegalização do Chega, que vamos lá. Não que essa discussão não seja pertinente, até pelo que vem consagrado na nossa constituição e que é fortemente agredida no programa político do Chega, mas todos ganhamos mais, em aceitar que o discurso mau e do ódio, combate-se com o discurso bom e justo. E aí creio que uma certa esquerda terá comprado a guerra e o discurso errado.

É fácil escrever agora que temos a Democracia que merecemos. Tal como temia, via por essas redes socias afora uma certa direita disfarçada democraticamente, sempre com a apropriação de um certo discurso de André Ventura sobre questões sociais dizendo: «ahhh eu não gosto do Ventura, mas…». Claro que na hora da verdade e de exercer o seu direito cívico, muitos eleitores no entusiamo da solidão do voto, descaradamente legitimaram todo este discurso do ódio. Quase 500 mil legitimaram o discurso do ódio. Porque é preciso conhecer o que diz Ventura sobre: Trump ou Bolsonaro, sobre os refugidos, sobre as minorias étnicas, sobre o papel do Estado, sobre a escola pública, sobre o SNS, sobre as molduras penais, sobre a Interrupção Voluntária da Gravidez, sobre a representação na Assembleia e número de deputados, etc. e não me canso de repetir, quase 500 mil portugueses legitimaram este discurso, estas ideias e são responsáveis por este crescimento.

E responsável é também o PSD e o PS. A Rui Rio parece haver a tremenda dificuldade de (como diria Ana Gomes) estabelecer um cordão sanitário ao extremismo do Chega, percebendo-se no horizonte eleitoral de Rio a necessidade de deixar uma janela aberta. Muitos foram os comentadores que se apressaram a sublinhar, António Costa, como um dos vencedores da noite. Eu sou daqueles que crê que, talvez no momento mais crucial de uma eleição Presidencial do Portugal Democrático, um dos partidos fundadores da nossa Democracia, o PS, amedrontou-se na mais do que iminente reeleição de Marcelo Rebelo de Sousa e fugiu ao combate político. Fez mal. Era imperativo ter ido para a luta, na primeira eleição Presidencial (2ª em geral) desde que há o fenómeno da extrema direita e creio que o eleitorado mais exigente, nunca perdoará António Costa por isso. Alguns dirão que por lealdade a um Presidente que possibilitou um Governo de maioria parlamentar de Esquerda, mas desvalorizou a urgência politica do momento.

Estratega nato, AC, não se permitiu dar-se a uma derrota eleitoral, apoiando qualquer candidato que oficialmente entregue ao aparelho do PS perderia a eleição para Marcelo. Aliás o discurso de regozijo de Carlos César, pela vitória de Marcelo Rebelo de Sousa é todo ele confrangedor. A uma militante Socialista, Ana Gomes, se deveu o facto do candidato da Extrema Direita (assumidamente com tiques fascistas) não acabar em 2º lugar. E sobre Ana Gomes, Carlos César e o PS não tiveram nem uma palavra. Fica-lhes mal. Seria excelente para Democracia e maravilhoso para Portugal que o actual maior partido se preocupasse, não só em estratégia política e em ter um projecto de Poder, mas também que algumas lutas são indispensáveis. E que neste caso, mais do que o PS perder uma eleição Presidencial, ganharia o fulgor e reconhecimento dos milhões que fazem a nossa Democracia. Ana Gomes não teve o meu voto, mas tem o meu imenso respeito.

O Chicão naquele seu estilo ainda adolescente, ainda nem percebeu bem que o CDS-PP se está a eclipsar do panorama político. Marcelo que, sem dúvida, depois de qualquer Presidente múmia seria sempre uma lufada de ar fresco, no panorama de um mandato Presidencial, cumpriu e tem cumprido ao que se propôs. Não votei Marcelo, sua origem partidária e o que ele defende em termos de matriz social afasta-me irremediavelmente e também sou daqueles que considera que não houve equidade na tão famigerada “distribuição dos afectos”. Mas vejo o seu lado humanista e social democrata e isso é reconhecido por qualquer quadrante político.

Recordei-me do que escrevi há uns meses sobre Donald Trump e a América. Talvez faça sentido contextualizar agora à nossa realidade: – «Quando assistimos à arrogância das congeminações proferidas por Ventura e o desrespeito por homens que fizeram de certos princípios algo inegociável», quase 50 anos após o 25 de Abril, ficamos de certa forma assustados porque o seu «iminente crescimento significa que boa parte do País se terá desumanizado». É possível que sempre tenha lá estado disfarçadamente. Tenho ideia de que a marca de quase 50 anos de estado novo foi tão profunda e tão enraizado no nosso quotidiano, que determinados sectores da nossa sociedade, nunca se democratizaram verdadeiramente. Por exemplo já não existe censura, mas temos outras formas de censura moral que nos domesticaram o pensamento. E isso teima em persistir.

Há também o discurso chavão de que “os políticos são todos iguais” e como que num exercício de preguiça intelectual, muitos cidadãos desinteressaram-se pela política e pelo seu dever cívico, contribuindo para uma gigantesca abstenção, muito aumentada nos últimos anos. A Pandemia também poderá ter explicado um certo afastamento, mas não justificará tudo. Como estamos infelizmente a perceber tão bem por estas Presidenciais, dizer ou escrever que “os políticos são todos iguais” não é a coisa mais sensata do mundo. Como poderemos ver nesta eleição. Há uma gigantesca diferença entre a seriedade de Tiago Mayan Gonçalves ou João Ferreira, de André Ventura.

Temos sempre esta tendência para acreditar de que a culpa de tudo o que se passa no país, não é nossa. Aliás falamos com um distanciamento quase delirante. Nunca dizemos que o problema de Portugal, somos nós mesmos. O problema do país é sempre de uma entidade que parece externa a nós: os políticos, a corrupção, etc.

Há um outro exercício que me preocupa muitíssimo. É quase insuportável que demasiadas estações televisivas, determinados comentadores políticos e veja-se bem, até políticos, coloquem a extrema esquerda em pé de igualdade com a extrema direita. Em primeiro lugar vamos desmistificar a palavra. Se for para utilizar a palavra extremo, para identificar partidos que à esquerda possam estar no extremo do assento parlamentar, ou que possam ser mais à esquerdas ideologicamente, aí, nesse caso, percebe-se o recurso linguístico. Mas na medida em que na maior parte das vezes é utilizado como, um dos chavões anti-democráticos é totalmente desonesto. Dizer-se que o PCP ou o Bloco são partidos anti-democráticos é simplesmente tonto, para além de uma grandessíssima falácia, que só pretende ludibriar o eleitor menos informado. Há uma gigantesca diferença no conteúdo politico de um partido como o Chega e o PCP ou o Bloco. Quando ouvimos ou lemos as propostas eleitorais e o programa do partido de extrema direita (Chega), percebemos o porquê de recorrer à palavra «extremo», às palavras anti-democrático ou fascistas. Faça o seguinte exercício, pegue numa proposta lei, ou programa do BE ou do PCP e mostre-me uma medida que atente às liberdades, à Democracia ou algo que possa ferir à partida a promoção da igualdade.

Claro que alguns dirão agora, então e: Cuba, Venezuela, Coreia do Norte, etc. Diga-se, a bem da verdade, alguns dos velhos chavões jornalísticos que em boa medida reflectem sobretudo uma certa preguiça jornalística. Também isso me distancia de certos sectores de uma esquerda mais ortodoxa, que muitas vezes não soube ou não sabe se distanciar de certos projectos políticos que colapsaram no mundo – tais como a União Soviética. Mas é importante perceber que o discurso do euro-deputado João Ferreira surpreendeu alguns de nós mais distraídos. Ao contrário do que poderíamos imaginar, João Ferreira esclarece sobre todos esses temas que para si nunca foram Tabu. Quando lhe perguntavam sobre o projecto socialista e em particular sobre os partidos comunistas de alguns países do mundo, João Ferreira respondeu sem hesitações: “O que falhou foram experiências concretas de aplicação dessa ideia do Comunismo. Nunca existiu um país comunista na terra. Por vezes faz-se esse erro.” E o jornalista insistiu: «então e os Países socialistas com uma classe dominante cheia de privilégios que deram a origem a alguns casos ditaduras de esquerda?». Ao que JF respondeu: – “Nós temos de aprender com tudo isso. Eu creio que temos de aprender com todas as experiências e não copia-las. Eu continuo a acreditar numa sociedade onde não exista a exploração do homem por outro homem”. Aliás João Ferreira pareceu-me um dos candidatos mais bem preparados nomeadamente trazendo o tema da Constituição para o debate, sublinhando a importância e a ambição pessoal de concretizar muitas ideias que estão por cumprir da Constituição Portuguesa. O tal Portugal de Abril que ainda não se cumpriu. Eu não sei onde a ambição cessa a utopia e vice-versa, mas foi das mais agradáveis confirmações de que de facto ainda há gente que está na politica para servir a causa pública, diferentemente de outros tantos que estão por ambição e ascensão politica e social. João Ferreira ou Marisa Matias são a negação disso mesmo. E o tão diferente que seria o Portugal moderno político com gente como o João e a Marisa.

No fundo João Ferreira, como também Marisa Matias têm descrito inúmeras vezes a ideia de que para o enriquecimento de determinados sectores, grupos financeiros ou indivíduos não seria preciso condenar a ordenados miseráveis uma série de pessoas. Como é que se explica nesta nossa organização social a disparidade que existe entre determinados gestores de topo de uma mesma empresa, ganharem 45 vezes mais do que o mais humilde funcionário da mesma? Como é que empresas que são estrategicamente fundamentais para o nosso turismo como a TAP, pode ter sido explorada por accionistas privados a ponto de dar prémios financeiros exorbitantes para certos gestores em anos de divida e completa falência técnica. E depois quando é preciso salvar a companhia, lá entra o Estado como accionista, sacrificando os contribuintes e centenas de postos de trabalho. E isto é uma questão ideológica também.

Em resumo o panorama que herdamos desta eleição é muito complexo, com o crescimento da Extrema Direita a desresponsabilização do PS, o fim da democratização de certos sectores do PSD, a extinção do CDS-PP e uma esquerda que perdeu força eleitoral. Esquerda que como dizia perdeu força mas que foi determinante para não permitir uma ainda maior ascensão do Chega. O que aí vem não é bonito! Mergulhados numa gigantesca crise sanitária sem precedentes, uma inevitável crise económica e até politica, caminhamos para um cocktail explosivo com todos os ingredientes que os líderes fascistas precisam para emergir, no desesperante dia-a-dia do homem comum. Servir-se-ão da crise e não se surpreendam quando daqui por uns meses André Ventura vier dizer às famílias portuguesas que “a invasão de certos estrangeiros” está a roubar trabalho aos portugueses de “bem”.

Precisamos de estar mais atentos e de fazer melhores escolhas para o país. Mas é uma escolha nossa, individual e colectiva. O problema não é a nossa Democracia, mas sim o que andamos a fazer com ela.

Tiago Silva


Opnião dos Leitores

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