PodCartas #26 – Faz de conta que é uma cidade

Escrito por em 17/01/2021

 
Lisboa, 17 de janeiro de 2021

Oi, Dona Bárbara,

Que maravilha é falar de presentes quando o mundo anda tão ausente. Que bom é falar de mimos que, eu acho, acabam por florescer em tempos difíceis. Acho que este é um tempo difícil, mas não tenho, a bem da verdade, termo de comparação com qualquer coisa vivida que magoasse assim tantos ao mesmo tempo. Sou muito mais fervorosa do dar do que de receber. Aliás, nem tenho jeito para ser presenteada. Modéstia à parte, sou muito boa a dar presentes. Considero-me atenta ao outro e, por isso, sei quase sempre o que fará a pessoa feliz. E a mim, em ricochete. Dos últimos, os que mais gostei de dar foram livros personalizados: a história da Lira, uma pequena risca rosa num teste de gravidez, escrito e medonhamente ilustrado por mim, As Aventuras da Menina Zequinha, à Marta, e a festa circense da Margarida, quando fez sete anos e que, em jeito de profecia, não esteve muito longe da realidade. Ó mãe, Ó mãe, a Tinês acertou em tudo, dizia ela, estupefacta, enquanto ia lendo as páginas dos livros. A t-shirt, para a Marta, desenhada com canetas próprias para a roupa, com um balão de banda desenhada a dizer Oh de fuff!, frase do Joey que a leva às lágrimas; a t-shirt, ainda tão pequenina, para a Sofia, em que bordei o símbolo dos Pearl Jam [feito também por mim]. Lembro-me de ser bem pequena, talvez uns sete ou oito anos, e chegando o Natal ter preocupação em fazer algo. O primeiro presente que comprei para oferecer foi um quadro. Entrei na papelaria da rua e com o dinheiro que tinha escolhi um quadro, que ainda hoje está na parede. Eu, que não sou adepta das festas marcadas no calendário, ainda assim, não gosto de falhar a lembrança. Mas também gosto de ofertar fora de época, o que é bem melhor, diga-se. Amanhã há aniversário aqui por casa. Um bolo e aletria são os meus presentes. Fazer um agrado não tem preço, né?

Por aqui, janeiro trouxe-nos o presente do novo confinamento, menos restritivo que em março do ano passado. Escolas abertas, cultos permitidos. Sempre que dão primazia à religião em detrimento de outras coisas, fico eriçada. Não é só a Católica, é qualquer culto religioso. Em tom de brincadeira, em meados de fevereiro, ou março, quando os casos do bicho tiverem diminuído, terão crescido exponencialmente os números de beatas e beatos. Ámen. Tudo o que ajude a meter o povo na ordem, está liberado. Não é tempo de festas, de alimentar os corpos com paganismos, é tempo de recolher, viver a culpa, penitenciar-se no silêncio, no recolhimento,

e agradecer aos céus por estar vivo. O caminho vai a meio, diria, e isto está feito para ultramaratonistas.

Tudo isto, e a palavra presente, fizeram-me pensar nas cidades, elementos criados para o movimento. Quem sempre fala muito das cidades é o Gonçalo [eu, de novo, citando-o]. Esse aglomerados de betão, cimento, simétricos, ou desalinhados, elementos vivos de pessoas presentes. De carreiros de gente em movimento, em velocidade de cruzeiro, sempre em audível queixume de que é impossível viver-se assim, sempre com a a ilusória ideia de andamento para algum lugar. Cruzamo-nos entre nós sem, na maior parte do tempo, nos vermos. Mas a ideia de cidade é isto: movimento. O que é uma cidade sem isso, sem o movimento, os fluxos, para que serve? Se tudo aquilo para que foi construída fechou, e não se produzindo nada do concreto, para que serve? Para servir de abrigo? Quem vive no meio rural está muito mais conotado com o isolamento e a solidão, mas será assim agora, quando o Mundo para? As cidades, vazias, deixam de fazer sentido. Só que não deveríamos ter uma visão global a partir dos passeios, sentia-las limpas de pessoas, já que estar em casa é o que nos é pedido. Só espreitar, pela nesga, como as coscuvilheiras, e ver as cidades mortas, à espera de serem calcadas para voltar à vida. É por isso que queria voltar ao campo.

Dizem que estamos apáticos, anestesiados, não temos o medo de março, quando o desconhecido nos bateu à porta.

Gosto de saber que estás desse lado e que o nosso movimento cria vida. E que loucura essa em Manaus, gente? Eu amo o Brasil, tu sabes, mas é um país que tem-me baralhado muito. Quando nos falta o oxigénio, o que nos sobra?

Vou pensar em coisas bonitas para te contar na próxima missiva, que essa está muito deprê!

Beijo beijo,

Inês

PS: As cidades também me ocorreram porque dei início ao Pretend It’s a City e deu-me uma saudade de odiar as pessoas que se cruzam comigo na rua porque não sabem andar na rua. Eu podia ser a Fran Lebowitz. Está na Netflix, que quando tu vasculhas bem, dá-te coisas boas.

Duas amigas, uma brasileira, outra portuguesa, decidiram fazer da carta o meio de comunicação, num ano que teima em ser diferente. Um ano em que não se podem encontrar fisicamente. Nas cartas, como antigamente, fala-se da vida por escrito. O que incomoda ou atormenta, o que faz feliz, indaga-se, mas, principalmente, partilha-se. A próxima ligação direta Rio-Lisboa é feita aqui.

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