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TunetRádio Cultura Primeiro
Rossana é, chamemos-lhe assim, o alter-ego de Inês Martins, 22 anos. A one woman show é dona de uma voz grave, peculiar, da qual está a tirar o melhor aproveitar. Ouvimo-la e o ouvido quer mais. Depois de uns tempos à deriva, decidiu rumar a Londres e foi lá que encontrou a persona que deu vida ao EP de estreia, Rossana’s Little Box of Feelings, uma pequena caixa de cinco joias, onde percebemos que além da voz, Rossana tem muito mais competências e que o EP é um pequeno luxo. Apesar de ainda estar no início dos 20, Inês Martins mostra grande maturidade na composição, que é cuidada, um trabalho minucioso e mesmo que este não seja, ainda, o caminho que procura, é, sem dúvida, um início que augura um belo futuro.
A TunetRádio aproveitou a estadia da cantora/compositora/instrumentalista em Lisboa para lhe dar a palavra e levantar o véu sobre quem é esta artista que traz em si muito jazz, blues e aquele toque francês boémio-glamoroso dos anos 60.
TunetRádio: Quem é esta artista que desponta em 2020? Quem és tu enquanto artista?
Rossana: A Rossana é uma maneira que eu arranjei de fazer a extensão, de certa forma, à personalidade da Inês, digamos assim. Quem sabe até as coisas que faltam um bocadinho à Inês tem-nas a Rossana e foi uma coisa que comecei a fazer há relativamente pouco tempo. O projeto começou no meu primeiro ano de faculdade, em Londres. Até ir para Londres, foram 16 anos no ensino de piano clássico, depois um ano de jazz para tentar escolher o que queria fazer, mas nunca tinha pensado começar uma coisa minha, com canções minhas, e quando fui para Londres, obviamente que as circunstâncias da minha vida mudaram imenso, e, de repente, descobri que tinha bastantes coisas a dizer. E foi assim que surgiu a Rossana.
TR: Que coisas são essas que tu sentes que tens de expressar e de que forma ela estende a tua personalidade e expores-te mais?
R: É como se fosse uma máscara e, ao mesmo tempo, não. No sentido de, o facto de estar no nome de outra pessoa, que continua a ser eu, como é óbvio, mas ir a palco sob o nome de outra pessoa faz com que haja certas vulnerabilidades que acabam por não trespassar. Pelo facto de o meu material ser em inglês, até agora, e isso também ajudar, quando não estamos a falar na língua-mãe há uma espécie de véu que conseguimos pôr. E é isso um bocadinho que sinto, são certas vulnerabilidades que se calhar , enquanto Inês não consigo demonstrar, mas enquanto Rossana consigo. Acho que é a melhor resposta que consigo dar.
TR: Quando surgiu esta necessidade de criar essa persona?
R: Quando comecei a tirar uma cadeira na faculdade, songwritting (escrita de canções), no primeiro ano. De repente, percebi que havia todo um mundo de coisas que eu desconhecia por completo, porque o meu ensino era para ser, basicamente, instrumentalista, não explorar a minha própria vontade ou aquilo que eu pensava. Eu não pensava escrevê-lo ou pô-lo em formato musical, simplesmente tocava peças de outras pessoas, que também dá um gozo incrível, mas de repente quando comecei a tirar songwritting, e também toda a mudança para Londres, deu-me uma nova perspetiva em relação a tudo e senti que esse mix de ficar focada no que é a arte de escrever canções e usar tudo aquilo que já tinha adquirido durante os 20 anos de vida, foi assim que consegui criar as minhas coisinhas.
TR: Escrever canções não era uma coisa que te passasse pela cabeça, a não ser quando chegas a Londres?
R: Podia haver uma cançãozinha ou outra, mas nada muito sério. Acho que não tinha coisas para dizer, acho que é mais por aí, sentia que não tinha nada dizer, da minha parte, que já não tivesse a ser expresso na música que eu tocava, quando percebi que havia aqui muita coisa que eu queria expor e quando comecei a tentar produzir coisas, a tentar mesmo letras minhas e a montá-las, a Melrose foi logo a primeira, quando ouvi o resultado final pensei: Uau! Ok! Isto está sólido, eu estou a gostar de poder dizer aquilo que me vai na cabeça e estar sob o meu controlo, como acaba por ser o meu projeto. Mudou imenso a minha perspetiva em tudo na vida e fez-me crescer.
TR: Como é que surge este nome?
R: Ele não tem um grande motivo por trás…Eu lembrei-me de uma senhora de um colégio onde eu andei quando era mais nova, lembrei-me do nome dela, sempre adorei o nome Rossana e comecei a pensar: Espera lá, se calhar Inês não é nome mais memorável, Inês Martins…não seria o nome mais memorável ou que se mantivesse aí em cartazes e comecei, literalmente, a pensar, pensar o nome como é que ficava, pensar como é que o nome se identificava com a minha estética, e percebi, Rossana é um bom nome. É uma palavra, é firme. Não há motivo emocional, foi mesmo escolha.
TR: Até porque Inês é dificílimo de dizer…
R: Sim, era mais isso. Lá sai sempre Ines, Inès, Ainis…nunca iria ser uma coisa propriamente bem dita e talvez no futuro faça coisas enquanto Inês, mas por agora tenho esta personagem que é só uma extensão de mim, que é a Rossana.
TR: O Melrose foi a primeira música. Como é que ela surgiu? Letra e música são tuas?
R: Todo o EP são letras minhas e composição. Melrose é o nome da rua da primeira casa onde morei em Londres, a Melrose Avenue, e lembro-me que foi uma música que o meu namorado – aproveito para dizer que neste momento estou com a BAIT Records e o meu namorado acaba por ser o co-fundador da label, ele mudou-se comigo para Londres para estudar Music Management, também, e lembro-me de estar em casa, ele tinha ido para casa para o Natal, e eu estava assim, a sentir-me muito nostálgica e com saudades e comecei a tentar escrever. Fui à faculdade no dia a seguir e comecei a experimentar umas coisas no piano. Foi todo um processo muito vagaroso, nada muito rápido. Quando olhei tinha um produto final. Uma coisa sólida e bonita. Estava bastante orgulhosa. E estou!
TR: Há também na tua imagem enquanto Rossana , e até no Melrose, algo de passado, mas ao tempo de futuro. Gostas de misturar estas duas épocas? Porque nem é muito bem definida…
R: É mesmo a minha inspiração. Eu tento neste EP seguir uma linha, como muitas influências, claro, tentar mostrar tudo aquilo que já adquiri com o piano, piano clássico, claro, mas que dá ali uma margem de manobra gigante para fazer imensas coisas musicalmente. Foi tentar usar isso também como a uma espécie de revivalismo ali dos anos 60 franceses, toda uma estética, que eu sempre senti que estava cá, mas que nunca consegui expor enquanto Inês e de repente aparece a Rossana e é a personagem, o escape perfeito para conseguir depositar esta nostalgia que eu sempre senti e pô-la num sitio e deixa-la lá.
TR: Tens trabalhado mais em inglês, sim? Mas na live que fizeste, tinhas lá uma versão da Senhora do Almortão.
R: Isso é para o meu novo projeto que devo estar a finalizar ali para março, que é fazer aqui um EP, uma compilação de músicas tradicionais portuguesas, mas com um pequeno twist, com uma batida mais eletrónica, mudar o formato à tradição, mas mantendo. É um projeto em que estou a trabalhar e estou muito entusiasmada. Nos concertos ao vivo já toco duas delas, é o dar um cheirinho do que é que vem a seguir.
TR: O próximo projeto estará mais inclinado para o português, é isso?
R: Sim, sim. O próximo EP, o objetivo, é incluir algumas canções minhas em português, o que já seria um passo diferente, mas, principalmente, ir buscar músicas de tradição, mas completamente desconstruídas e reconstruídas à minha maneira.
TR: O mercado internacional é o que te interessava ou foi só mesmo para estudar e acabas por encontrar o que procuravas?
R: Foi muito influenciado pelo facto de estar em Londres e de querer que a minha música chegue a um pouco mais do que só Portugal, mas também pelo facto de sempre me ter sentido extremamente confortável com o inglês. A mensagem que eu estou a tentar escrever se o fizer em português acabo por me perder em pequenos provérbios, que não dão para traduzir, então o inglês acaba por ser um bom escape para a vulnerabilidade que estava a falar. Foi nestes moldes que arranjei o EP em inglês.
TR: Em relação à tua voz, ela é muito particular. Voz grave, nem é cavernosa, ela enche mesmo. É uma mais valia para ti, não haver tantas mulheres com vozes tão graves?
R: É um ponto a meu favor. Tenho a noção de que que a minha música não é algo complexo, agora falando em termos técnicos, harmónicos, não é de difícil perceção, são harmonias, e costumo dar este exemplo, retiradas de canções pimba portuguesas. Se extrairmos a harmonia e a organizarmos de outra forma, como um puzzle, de repente temos coisas incríveis, pequenas melodias como é o caso da Melrose. A Melrose acaba por ser mais romantizada, há ali muitos elementos de produção, mas não passa de uma balada romântica. O que basicamente a distingue é a questão do timbre, da voz, do peso que já está em mim, eu não forjo a voz, quando eu canto, canto assim. É uma mais valia para mim, tenho consciência disso.
TR: Mesmo sendo Melrose uma música que fica no ouvido, ela tem bom gosto, sente-se que há um trabalho por trás. Não é uma música simplória.
R: Sim, teve ali muito trabalhinho! Teve muito arranjo para ficar uma coisa bonita.
TR: A primeira vez que te ouvi foi no The Voice. Que impacto teve a participação no programa, de que forma de ajudou, se te deu alguma visibilidade? Ou foi apenas uma forma de te mostrares e seguires o teu caminho?
R: O The Voice foi, na minha mais sincera opinião, um erro. Quer dizer, não foi um erro, foi uma experiência que não me abriu portas nenhumas, mas abriu-me a perceção daquilo que eu não quero fazer. No ano em que concorri estava um pouco perdida, já não sabia muito bem para onde ir com a música, porque tinha saído, depois de anos e anos, do Conservatório, tinha tirado aquele ano de jazz e estava um pouco confusa com o que fazer a seguir e pensei, muito ingenuamente, por que não entrar aqui? Tentar trazer o jazz à televisão portuguesa, ver como é que as coisas correm. Mas acabou por ser um projeto materialista, como é a televisão e eu compreendo. Simplesmente, não é para mim. Tudo demasiado embelezado, pré-feito, pré-influenciado, pré-manipulado e ali percebi, o que quer que seja que eu esteja a fazer na música, não é definitivamente isto que eu quero. Não me abriu portas nenhumas, só de visualizações no YoutTube.
TR: Quando dizes que te mostrou o que não querias, é a música mais massificada?
R: Nem é tanto a questão da música massificada, não tenho nada contra isso, tanto que eu ouço muita música considerada pop, pop mainstream, e também sei que há boas músicas, mas era a maneira como estava feito o programa. Não ia retirar nada dali, não havia nada que eu pudesse espremer para mim, aprender e evoluir. Eram horas e horas de gravação, como é a indústria da televisão, mas senti que era focado na voz, senti que era focado em imagem, em entretenimento, e por isso friso, fui muito ingenuamente à procura de uma coisa que na verdade o The Voice não ofereceu, mas também não é culpa deles. Foi só um tiro à parede.
TR: Qual a tua influência no teu trabalho? Percebe-se que há muito jazz, blues. É muito uma one womanshow, parece-me. Estarei errada?
R: É uma boa maneira de pôr a situação. As minhas maiores influências são o piano clássico, mesmo música clássica, música latina, também, e incluo aqui a portuguesa, também já fui buscar a música espanhola, acho que é mais por ai, não é tanto pop, como definiria, mas sempre tive dificuldade de identificar o meu próprio género. Torna-se um pouco complexo. Mas posso dizer jazz, música clássica e anos 60, 70, é onde me tento inspirar.
TR: Este ano de 2020 foi o que se sabe, quais os planos para 2021?
R: 2020 foi um ano complicado, mas não me posso queixar. Se a pandemia não tivesse acontecido, havia aqui muita coisa que se calhar não tinha corrido como correu. Se calhar não tinha tido nem metade do tempo que tive para aprender novas coisas na quarentena, produzir, criar, portanto, de uma perspetiva egoísta, enquanto Inês-artista, e nas condições que estava em Londres, eu estive bem, não me posso queixar, há quem tenha passado muito mal, mas como toda a gente, já estou naquele limite em que já sinto falta de ir desanuviar, ir ouvir música de outras pessoas. 2021 vai ter aqui, espero, o ano de catapulta, que já era para ser 2020, os planos acabaram de passar para 2021, alcançar uma audiência, que não procuro seja gigante, prefiro ter uma audiência mais pequena, mas que de facto ouça as minhas coisas, perceba o que eu estou a tentar dizer, e tocar, tocar, tocar ao vivo, é o que todos músicos têm mais saudades.
A artista portuguesa tem concerto marcado para dia 8 de janeiro, às 20:30, no Teatro da Malaposta.
Escrito por Inês Henriques
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