FESTin – Pacarrete, pessoas que já não se usam

Escrito por em 15/12/2020

O filme de Allan Deberton fez parte do cartaz do segundo dia do FESTin – Festival de Cinema Itinerante de Língua Portuguesa, que termina esta terça-feira com “Boca de Ouro”.

Pacarrete. Pacarrete é Margarida em francês, diz-nos, a certa altura, a personagem principal deste filme singelo. Singelo é uma palavra que caiu em desuso, tal como Pacarrete. O adjectivo era muito usado durante as épocas galantes e cavalheirescas, para distinguir o que era único. Tal como Pacarrete, a anti-heroína desta história brasileira de Russas, que mais não é do que verídica. Com aquele toque francês, começamos por ver uma senhora, cuja idade é difícil de situar, num vestido a lembrar outras épocas, a varrer a calçada da frente da sua casa, amarela, enquanto dança, criando uma simbiose delicada entre ela e a vassoura. É uma mulher distinta, que emana bom perfume quando passa à porta da quitanda de Miguel, o seu flirt e o único que a compreende numa cidade que a maltrata pela diferença. A personagem é antiga, mas a luta é a de hoje, que já devia ter aprendido a aceitar que a igualdade apenas deve existir nos Direitos e Deveres Humanos. Tudo o resto, é diferença. Trabalhando entre o cómico e o trágico, Marcélia Cartaxo, a eterna Macabéa de A Hora da Estrela, que curiosamente a RTP2 recuperou por estes dias no centenário de Clarice Lispector, dá-nos uma personagem transcendental e consegue fazer o riso ser profundo e a lágrima correr no minuto imediatamente seguinte.

A história é muito simples: Pacarrete quer fazer uma atuação do Lago dos Cisnes na celebração dos 200 anos da cidade, Russas. Não sendo levada a sério na cidade para onde se mudou para tratar da irmã paraplégica, cedo se percebe que isso não irá acontecer e a trajetória é agora a não desistência da personagem em levar a sua avante. Um dos traços interessantes da personagem é a delicadeza que emana enquanto dança, ou enquanto se passeia pelas ruas nos seus vestidos bonitos, chapéus elegantes, sempre rosada nas faces, e a raiva quando explore contra quem a ofende, quem não a entende, ou quando anda sem pensar que é bailarina. Andar pesado, algumas vezes tronco curvado. A contracena com Miguel – interpretado pelo sempre brilhante João Miguel – traz-nos momentos de absoluta ternura, a esperança de que a vida não acaba quando as primeiras rugas brotam. É ele que a socorre na segunda fase do filme, digo assim, quando Pacarrete se encolhe, perde o brilho. O momento da morte da irmã, antecedido pela conversa entre as duas, quando Pacarrete acredita que morreu e não se deu conta e por isso ninguém a ouve, é o ponto de viragem para a personagem que víamos como cómica. O desespero dela é musicado por Tina Turner no seu We don’t need another hero, aos altos gritos no rádio que tinha ligado havia minutos para as duas dançarem, uma banda sonora que não nos ocorreria, mas que nos aperta o peito. A personagem outrora feminina, torna-se animalesca, bicho do mato. E é em He-Man, o cão que encontro na estrada e que adotou, que deposita o amor que tem e que precisa dar. O filme não acaba assim, ela ainda volta dessa curva descendente para le grand finale.

Pacarrete é isso, sobre pessoas que já não se usam. Esta expressão surgiu na minha cabeça há algum tempo, quando me apercebi que as pessoas que ficaram, indumentariamente, presas num determinado tempo, são vistas de lado, a roçar o louco, porque a Humanidade decidiu apelidar assim tudo o que sai fora das normas. No caso da personagem é duplo, porque, para os outros, ela já não tem utilidade. Pacarrete vive no seu tempo, incompreendida, vive na sua própria cabeça, resiliente, e tem, no final, o seu momento épico, num fato de cisne, como a sua musa Anna Pavlova, tantas vezes revista naquela VHS que, mais uma vez, Miguel salva da morte, o seu canto do cisne num teatro vazio, mas onde a luz incide sobre ela. Só sobre ela.


Opnião dos Leitores

Leave a Reply


[Nenhuma estação de rádio na Base de dados]