2020, Ano louco em toda a parte

Escrito por em 15/12/2020

O fim de qualquer ano costuma ser matéria interminável para balanços. Talvez este seja um ano demasiado óbvio para iniciar-se num balanço que depressa se transformará num compêndio dos excessos. Está na moda fazer um retrato medonho de 2020. No caso deste pobre ano, a adjectivação é tão caluniosa, com tanto ataque à mistura, que ele quando é invocado num telejornal qualquer, já só é visto de capacete e colete à prova de tudo.

Apetece-me, por isso mesmo, fazer pouco deste ano. Gozar com ele o máximo que conseguir, muito embora depressa me lembre que lhe devo um dos mais notáveis acontecimentos da minha vida – o nascimento da minha filha. Já dizia o RAP quando se imita alguém, como quando se goza com algo ou alguém, estamos de certa forma a convocar esse mesmo alguém, ou algo, a participar na sua destruição. E ao mesmo tempo, atribuindo importância por invoca-lo. Às tantas o melhor é ficar quieto e invés da chacota pública ao ano de 2020, pelo sim, pelo não, o melhor mesmo é apenas menciona-lo, até porque ele (2020) continua a surgir-me em cada semana (e agora bem próximo do seu fim), a cada dia, como uma imensa Paródia Cinematográfica.

Partimos muitas vezes do pressuposto que a simplificação das discussões as empobrece. Mas não é verdade. Estou sempre em crer que utilizar uma linguagem simples, ao invés do famoso jargão é até um exercício que em rigor é mais difícil, mesmo em contexto académico. Ou talvez seja apenas uma desculpa minha para justificar se o leitor alinha comigo na brincadeira. Começo então por exercitar a memória de cinéfilo do leitor. Lembra-se de um filme de Steven Spielberg intitulado de «1941 – Ano Louco em Hollywood»? Para todos os efeitos, se nasceu algures entre o final dos anos 70 ou inicio dos 80, poderá ter visto em versão Beta ou VHS. O filme conta-nos a história de como é que os EUA lidaram com o trauma do 7 de Dezembro – Pearl Harbor nas semanas imediatamente a seguir. A iminência de um suposto ataque Japonês em território Californiano, dá lugar a uma certa histeria colectiva. Depois dos sucessos comerciais de «O Tubarão» e «Encontros Imediatos de III grau» ninguém perdoou a heresia da proposta cómica de Spielberg e o filme converteu-se num estrondoso fracasso. A melhor recordação do filme talvez seja mesmo a inesquecível marcha de John Williams. Mas revisitar o filme em 2020 é ver que uma certa América em plena Pandemia, no último grande fulgor Trumpista permanece exatamente igual. Spielberg revia uma das teorias do humor e num sem número de eufemismos e ironias, procurava através da teoria da superioridade que uma certa prepotência Americana, justificada sempre com a estupidificação da população, permitia e permitiu certas loucuras. Ele teve esse distanciamento temporal de em 1979 poder gozar com a América de 1941 e os possíveis traumas da invasão japonesa.

Tenho me lembrado também do tantas vezes esquecido: «Os Deuses devem estar Loucos» de Jamie Uys. Não só pela infeliz coincidência do que vivemos em pleno 2020, mas porque em rigor e tal como no filme de Uys, também a Pandemia parece trazer à superfície problemas estruturais que quase todos os países atravessavam. Se o objecto estranho caído dos céus (garrafa de coca cola) começou por suscitar uma certa curiosidade humana, por parte de uma tribo do recôncavo Africano, depressa expressou aquilo que de pior o ser humano tem – arrogância, ganância, individualismo, etc. Para sermos exactos, e mais uma vez que o ano 2020 não me leve a mal, mas se fosse hoje é provável que James Uys tivesse de reescrever o Guião, ou pelo menos a cena em que o piloto da Avioneta manda (depois de ingerida) a garrafa vazia de coca cola pela janela do pequeno aparelho. Vivemos nesta dicotomia, em que se por um lado não há filtros nas redes sociais que se converteram em “tribunais moralistas” do que se pensa e escreve, por outro, em plena era do politicamente correcto, qualquer referência de género, de credo religioso, étnico-racial, brincadeira com o ambiente, referenciais a animais, etc, ainda que absorvido de uma inteligente e mordaz ironia – pode pura e simplesmente terminar uma carreira. Hoje ninguém pode brincar de atirar uma garrafa para o chão e tudo o que ela representa.

Não estou seguro, de que por exemplo a «Mafalda» do genial Argentino Joaquin Salvador Lavado (Mundialmente conhecido como – Quino) à luz de alguma imbecilidade espalhada pelo mundo pudesse triunfar hoje em dia. Quino, tristemente desaparecido neste ano tão sem critério, já gozava de um merecidíssimo prestígio internacional, colecionado durante décadas. Mas conseguiria o jovem criador dos anos 60 emergir nestes tempos tão contraditórios? Sobretudo porque a sua personagem mais famosa, aquela menina de 6 anos avessa a injustiças, demonstrava também aquela ironia fulminante, sem filtros, numa espécie de narrativa diária sobre a angústia do homem comum. Tudo isto, com doses delirantes de humor. Olhem por exemplo o que alguns fizeram com as por demais pertinentes preocupações ambientais de Greta Thunberg e sua urgência em alterar o curso das coisas! São demasiadas questões no séc. XXI bipolarizadas: pandemia, racismo, religião, alterações climáticas, questões de género, animais, etc. Esta é a minha hipótese para o mundo: talvez precisássemos de aulas de humor na escola.

Se há pouco invocava John Williams, que tal como Spielberg pautou muito do nosso imaginário infantil, com a expressão artística definitiva de alguns símbolos cinematográficos: Super-homem, Indiana Jones, ET, Star Wars, etc. Na verdade, aquilo foi tão bem feito e tão definitivo que ouvimos a sua banda sonora e viajamos imediatamente para a personagem ou filme. Por isso mesmo, fico comovido ao ver numa certa Televisão Portuguesa, em plena Pandemia, uns quantos astutos da desgraça, uns quantos comentadores políticos. Habituei-me a ouvir alguns deles, como a expressão iconográfica de cada personagem de John Williams, às vezes parece que sou avisado como na “assustadora” e inesquecível música de «O Tubarão»: “Tan, tan, tan Tannn, Tannnn”. Quando os começamos a ouvir no ecrã lá de casa, o melhor mesmo é nadar para um outro canal. Há por aí um comentador politico, bem conhecido do grande público, talvez com a idade do meu tatara-avô, que no outro dia sobre os dois candidatos presidenciais – falava no candidato Stalinista e a candidata Maoista, referindo-se obviamente a João Ferreira e a Ana Gomes. O truque é velho, aproveita o seu tempo de antena em prime time no mais famoso canal informativo, para anunciar a velhinha ameaça comunista. Tem piada que mesmo não sendo religioso sinto-me sempre dentro da canção de Dylan «Talkin’ John Birch Paranoid Blues» e perante “tão prováveis” ameaças ideológicas, sou como que Sebastianista na espera. Graças a Deus, aliás, graças a alguns Portugueses, continuamos a ter analistas políticos tão certeiros como analistas de Tarot nos primeiros dias de um ano.

Não sei se também acontece com o leitor, mas por vezes dou por mim a ouvir tipos destes e sentir-me como a personagem interpretada por Jack Nicholson no brilhante: «Voando sobre um ninho de cucos». Para eles é bastante lucrativo fazerem de nós tontos. Aquele comentador, que eu não posso dizer o nome, lembra-me também a passagem do filme de 1992 «Perfume de Mulher» com Al Pacino e Chris O’Donnell. A páginas tantas no filme o conturbado Coronel Frank Slade, superiormente interpretada por Al Pacino dirige-se a O´Donnell interpelando o seguinte: “Toda a minha vida fiz frente a tudo e a todos. Sempre e só, porque me fazia sentir importante. Tu fá-lo por convicção. Tens integridade Charlie”. E é bem salvaguardado da minha apostrofe que não pretendo ofender Platão, quando digo que este incompletou-se sobre os homens. “Não há só os vivos, os mortos e os que andam no Mar”. Há também uns quantos a quem sobra essa integridade de que nos fala o Coronel Frank Slade “incapaz de vender alguém, para safar o couro”.

A Ana Mafalda Leite contava-nos a propósito da «lenda da criação»: “no princípio havia Deus e a terra parada, um dia um relâmpago imenso desenhou nos céus a chuva que trouxe à terra o homem e todos os animais”. E a propósito do seu escrito tropecei em dois livros, para animar ainda mais este 2020. Um de Yuval Noah Harari e o seu «Sapiens» e o outro do Português António Damásio «A estranha ordem das coisas». É que repare, já estou para aqui a escrever há umas horas e precisaria agora de desmontar 2020 e perceber como é que chegámos aqui.

Quando mergulhei no autor israelita, lembrei-me da obra prima de Miyazaki «Viagem de Chihiro», aliás com uma estrutura bem semelhante a «Alice no País das Maravilhas». Uma menina chega a um mundo absolutamente estranho e cativante, mas sobre o qual tem muito poucos elementos, podemos pensar na nossa própria evolução como espécie. Se em parte o filme de Miyazaki simbolizava a complexa transformação e crescimento de Chihiro através do elemento alegórico – viagem, também nos apercebemos que o sucesso da mesma, depende da cooperação das personagens que vão surgindo no universo da pequena menina de 10 anos. Essa parece ser a condição inequivocamente identificada para o sucesso do Homo Sapiens na terra – a sua capacidade de cooperar e se organizar socialmente de cada vez que chegava a uma nova geografia, quando há 4 milhões de anos se começava a deslocar para outras parte do globo, saídos da África Oriental.

Yuval numa das suas mais recentes palestras, fez-me pensar em Tom Hanks e no seu «Cast Way» de Robert Zemeckis. Na conferências interpelava a audiência: “Imaginem-se sozinhos numa floresta de uma ilha qualquer deserta de outros seres humanos, na companhia de um Chimpanzé. Apostaria que qualquer um de nós independentemente das qualidades intrínsecas que tiver, terá muito menos chance de sobreviver”. E a verdade é que se observarmos microscopicamente a um nível individual, cada um de nós será embaraçosamente parecido com um chimpanzé. Mas não é ao nível individual que nos deveremos focar para compreender o sucesso da nossa espécie na Terra. Claro que isto peca, por pouco rigoroso. Alguns humanos, como Jair Bolsonaro, são dotados das mesmas fragilidades cooperativas de quase todos os Simios.

Nós dominamos e dominámos o Planeta porque somos a única espécie capaz de cooperar em grande escala e com grande flexibilidade. Para isso é preciso perceber o que nos conta por exemplo o Português António Damásio a propósito do papel da orientação social, e suas profundíssimas origens humildes, que nem as mentes dos Homo Sapiens, nem de qualquer outro mamífero tiveram na base da sua estreia. “As bactérias foram as primeiras formas de vida, remontando a quase quatro mil milhões de anos. O seu corpo consiste de uma célula que nem sequer tem núcleo.” É incrível quando percebemos que as bactérias que vivem em terrenos onde os nutrientes são escassos, elas se agregam. As bactérias «calculam» os números de participantes nos grupos que formam, e sem recorrerem ao raciocino avaliam a força desse grupo. Viajei de repente para o filme de David Fincher «A Rede Social». Nem as bactérias fazem a “sacanagem” de roubar uma boa ideia. E já nos dizia a personagem do japonês Ken Watanabe em «Inception» de Christopher Nolan “não há nada mais poderoso do que uma ideia”. Quando se “coloca” uma ideia na cabeça de alguém, muito dificilmente se anula o seu poder.

Bom! Que irresponsabilidade minha, estou para aqui às derivas numa qualquer tese discriminatória sobre 2020 e fui parar ao tema das bactérias. Permita-me, então, deixar-lhe um breve conselho dentro de uma certa Francofonia, agora que estamos próximos do Reveillon, talvez o melhor mesmo seja sair de 2020 à Francesa.

Tiago Silva


Opnião dos Leitores

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