Fradique estreia em Portugal “Ar Condicionado”

Escrito por em 25/11/2020

O realizador angolano Fradique estreia, na quinta-feira, no festival Porto/Post/Doc, no Porto, o filme “Ar Condicionado”, passado em Luanda, com pessoas da classe trabalhadora e “algum realismo mágico”.

“Em Luanda, os aparelhos de ar condicionado começam a cair misteriosamente dos edifícios. A missão de Matacedo, segurança, é consertar uma das máquinas. A sua busca assinala o ponto de partida para um filme sobre a história desta cidade e das pessoas que tentam reconstruir as suas vidas, após a guerra civil”, pode ler-se na sinopse do filme, estreado no Festival Internacional de Cinema de Roterdão.

Essa personagem, assim como as outras que com ele se cruzam e relacionam – Zezinha, empregada doméstica, e Kota Mino, dono de uma loja de materiais domésticos – vêm de um lado de Luanda “que, de certa forma, é invisível”.

“Temos muitos seguranças, muitos veteranos da Guerra Civil, e falar dessa camada, destes trabalhadores e empregadas domésticas, tê-los como protagonistas numa história de cinema, é algo que quase nunca acontece quando fazemos filmes em Angola”, explicou ao jornalista Simão Freitas, da Lusa.

O autor de “Independência” (2015) conta aqui com Ely Carver, como diretor de fotografia e coargumentista, num filme com banda sonora de Aline Frazão, e “um pouco de realismo mágico”, algo que “fica muito bem dentro das narrativas e realidades que parecem ficção em Angola”.

“Os ares condicionados entram como elemento importante e simbólico, que vem representar esse sistema e condicionamento que vivem essas pessoas na cidade de Luanda”, esclareceu. Este “filme de ficção, com uma dose muito grande de realidade”, retrata uma Luanda que “existe nos dias de hoje”, onde não caem sistemas de ar condicionado mas onde já viu “um frigorífico atirado de uma janela”. Inclui habitantes de um prédio que, além de cenário, trouxe uma comunidade que ajudou a produção do filme, e entrou também no próprio elenco.

“Aquele prédio e aquela rua fazem parte da baixa da cidade de Luanda, mas uma parte que está a ser empurrada a cada dia, a cada ano, uma parte antiga, que não é envidraçada e esteticamente não está bonita para ser cartão postal da cidade. Era importante ter este olhar e mostrar isso. Cada personagem do filme – falo do Matacedo, da Zezinha e do Kotamino – representa como nós luandenses encaramos o dia-a-dia”, contou o realizador.

Fradique escreveu Matacedo como “um pouco apático, a seguir o seu dia”, e a animar-se quando está com Zezinha, que “vive para a frente e não tem tempo a perder”, mesmo que reflita no passado quando está acompanhada. E há a “geração mais velha” de Kota Mino, que “fez a independência e se preocupa em resgatar memórias e encontrar uma salvação no passado”.

A pandemia da covid-19 acabou por não afetar a estreia, uma vez que o filme passou em Roterdão, ainda em janeiro, mas afetou viagens posteriores e outras presenças em festivais, “quase tudo cancelado ou adiado”.

Foi premiado em Innsbruck e passou pela China, pela Índia, e acaba de se estrear, em formato ‘drive in’, em Angola. Chega agora a Portugal, num ano em que “foi importante os filmes e festivais não terem parado”, e terem feito uma adaptação para o ‘online’, afirmou.

“Isto é um filme que até mesmo dentro de Angola, as pessoas dentro de Luanda vão sentir e perceber e ‘empatizar’ de forma diferente de alguém de Benguela, Huambo, mais do interior. As pessoas de Luanda que vivem em prédios têm uma vivência completamente diferente. Há sempre um nível de proximidade e empatia que depende do público”, disse o realizador.

Ainda assim, lembrou, estas personagens “têm conseguido chegar a públicos muito diversos” e “dialogar com realidades diferentes”, o que considera “muito gratificante” e dá “força para fazer este tipo de cinema”.

Para o futuro, tem um projeto em desenvolvimento “há quase cinco anos”, no caso, “um filme de época” que o deixa com “muita vontade”, mesmo que envolva alguma complexidade para a rodagem. Esse projeto parte do romance “O Reino das Casuarinas”, do autor angolano José Luís Mendonça, um livro que considera “dos melhores romances” de Angola, “que nunca teve muita visibilidade” e que dialoga com os mesmos temas que explora enquanto cineasta: “a memória, o passado, as diferenças sociais e como nos tratamos uns aos outros na sociedade”, que “escapatórias se encontram para lidar com o sofrimento e a morte”.

“Ar Condicionado”, com música de Aline Frazão, conta no elenco com, entre outros, José Kiteculo, Filomena Manuel, David Caracol, Sacerdote, Tito Spyck e Filipe Pali. O realizador Fradique, que nasceu em 1986, em Angola, é um dos fundadores do Geração 80, que produziu este filme.

Antes de “Ar Condicionado”, Fradique, que estudou cinema nos Estados Unidos da América, realizou as curtas-metragens “Kiari” (2007) e “Alabamento” (2010), e o documentário “Independência” (2015), que “parte de memórias da situação colonial em Angola, revela os passos iniciais da luta de libertação e percorre alguns dos seus principais cenários”.


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