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O SONHO NO APEADEIRO DO ESTADO DE CALAMIDADE

Escrito por em 17/10/2020

O sonho era aquela aldeia que resistia na margem do ribeiro,
a cidade que se atravessava de metro,
o país que se conhecia no banco de trás do comboio,
o mundo que se vislumbrava da janela do avião.

O sonho era o subúrbio onde cabiam a aldeia, a cidade, o país e o mundo,
a estação onde se aprendia a conhecer pessoas,
a leitura interrompida pelo solavanco da utopia e da distopia.

O sonho era a onda que nos impelia a entrar e a sair ao mesmo tempo,
o migrante de emoções que nasciam, cresciam e morriam todos os dias no rosto de desconhecidos.

Era passear histórias nos jornais que se liam
e levá-las dobradas debaixo do braço.

O sonho era andar de headphones colados aos ouvidos com o Bob Dylan a perguntar-nos:
“Miss Lonely, how does it feel to be like a complete unknown?”
e nós a tentar adivinhar a resposta por detrás da máscara invisível de cada um dos passageiros.

O sonho era quando despertavas ao som do altifalante que anunciava o atraso, a chegada e a partida,
para em passo rápido arrumares a bagagem e assim,
de repente,
te encontrares de mãos livres e vazias,
outra vez.

O sonho é de uma natureza feita de transportes,
gerações, classes, culturas e etnias,
fados únicos unidos por trajetos indivisíveis
na hora de ponta de todas as ideologias.

O sonho é o caminho
que esperamos que nos leve de regresso a casa,
essa aldeia onde à beira do ribeiro
novos sonhos ainda existem
e persistem.

Como dizia o Nobel:
“I was born very far from where I’m supposed to be,
and so I’m on my way home…”

Filipa, 17.10.2020


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