Gonçalo M. Tavares: “Não me satisfaz a ideia de só contar uma história”

Escrito por em 26/12/2019

Mesmo a terminar o ano, Gonçalo M. Tavares publicou mais um livro, “Bucareste-Budapeste: Budapeste-Bucareste” (Relógio d’Água). Faz parte do Projecto das Cidades, que tem a sua própria tabela periódica. Neste livro que reúne três contos passamos por quatro: Bucareste, Budapeste, Belgrado, Berlim. Há um fascínio do escritor pela turbulência do século XX e pelas cidades, pólos do movimento por excelência. O movimento é continuo, animalesco se visto do exterior, nas horas ininterruptas quando escreve, como tantas vezes gosta de contar. Serve-se do silêncio e do isolamento para ela se dedicar.

O novo livro e a mais recente reedição de “Breves Notas sobre o Medo” foram o pretexto para uma conversa com leitores, no dia 21 de dezembro, no espaço da EC.ON, em Lisboa. Conversas abertas, de discussão, que tanto lhe agradam, como confessou. Desse encontro surgiu a entrevista à TUNETRÁDIO.

Neste último livro, “Bucareste-Budapeste”, voltamos às cidades, aos espaços concretos, mas sempre sem tempo definido. Que espaços são estes, que três textos são estes?
Este livro, apesar de tudo, por exemplo, no primeiro conto, Bucareste-Budapeste, situa-se no pós império soviético, pós-II Guerra Mundial, nunca é dito o ano, mas percebe-se. Os outros acho também que se percebe que são pós-II Guerra. Talvez se sinta que, em termos cronológicos, há mais ou menos uma sequência. E Berlim já depois da queda do muro. Esses textos são muito a ideia que me interessa de um caminho do meio entre o Bairro e o Reino. O Reino acho completamente fora do tempo, o Bairro é quase também uma utopia e este [das Cidades] é talvez o que se situa mais no tempo, mais historicamente e por isso até está muito ligado a cidades com memória gigantesca, como Berlim, é evidente.

Berlim é uma cidade coqueluche para si.
Sim. O século XX, pelo menos a primeira metade, tem ali Berlim, Paris, Moscovo, e depois houve uma deslocação no final do século XX e agora no século XXI. De alguma maneira, não é por acaso que os acontecimentos trágicos saíram um pouco da Europa. Considero que Berlim, se houvesse uma espécie de centro de cidade, centro do século XX, Berlim teria sido provavelmente o centro.

Como entram aqui Bucareste e Budapeste numa só? Tem a ver com esta semelhança fonética?
Sim. O conto interessava-me muito a questão da fronteira, a ideia de a fronteira normalmente ser um sitio já fixo e assente, em principio já não há muita história na fronteira, normalmente é o fim. E neste conto, “Bucareste-Budapeste Budapeste-Bucareste”, eu ponho os dois, porque é precisamente a ideia de um conto que tenta narrar dois percursos opostos que, subitamente, num momento decisivo se cruzam na fronteira e por causa desse cruzamento, e não querendo contar a história, há um desenlace diferente. Também acho o conto mais narrativo. Em relação à estátua, ao Lenine, interessa-me muito esta questão de como os antigos vestígios da União Soviética, como é depois foram desaparecendo, sendo escondidos. O conto também é muito sobre isto, sobre como é que se apaga a História que é material, como é que se tapa, como se esconde?

Há, também, a questão da cabeça. Porque o corpo da estátua é desmembrado.
Quando se fala de uma figura histórica como Lenine há muito esta questão das ideias e quando se leva a cabeça é como se se levasse as ideias, a ideologia, uma forma de ver o Mundo. Levar o corpo é levar o que sobrou, é levar outra coisa, não a ideologia. Claro que pode haver muitas interpretações sobre o conto, mas esta é uma possibilidade.

No Vampiro de Belgrado há a questão da imagem, algo que não nos imaginamos sem.
Sim, nós crescemos já num mundo saturado de imagens. Neste conto a ideia era muito esta do vampiro que suga o sangue. Interessava-me aqui pensar o que era o sangue no século XX e de alguma maneira o sangue do século XX, o sangue que não está dentro das pessoas, o sangue público são as imagens. Ali, era alguém que se alimentava da própria imagem. E também esta questão de quando absorvemos as imagens o exterior parece que deixa de existir ou o exterior retratado. Hoje consumimos imagens, comemos imagens como o vampiro e muitas vezes desistimos de comer coisas porque já comemos essa imagem. Muitas vezes vamos a um sitio para vermos a imagem que já vimos milhares de vezes, o que, parecendo um pouco estranho, mostra que a imagem não substitui a realidade. Ninguém deixa de ir ver a Torre Eiffel a primeira vez que vai a Paris porque já viu milhares de vezes em filmes. Querem sempre ver. É uma esperança que a imagem não seja exaustiva, apesar de tudo, a imagem ainda deixa curiosidade às pessoas.

Para o Gonçalo que é um escritor que usa muito a imaginação, mundos imaginários, que desconstrói o real concreto para criar mundos alternativos, a imagem mata essa imaginação ou é um aliado?
Depende das imagens. Se virmos um filme do [Ingmar] Bergman ou do [Andrei] Tarkovski é evidente que aquelas imagens têm uma potencialidade para o espectador para criar novas imagens muito grande. Mas diria que a imagem, não diria obsessiva, torna muito atractiva e suga-nos muito para o exterior. Acho, pelo contrário, o livro, o texto, permitem à pessoa, que está ainda com espaço vazio, poder ocupar com imagens, com pensamentos. Ver um filme, mesmo que muito bom, é colocarmo-nos no exterior. Se só estivermos virados para fora não vamos construir nada interiormente.

Ainda sobre a imagem, no último texto, a imagem é forte, é quase como o principio e ao mesmo tempo há uma pergunta quase retórica: “Markus não respondeu. A mão dele estava no sexo dela: Martha apontava para Berlim. Berlim, vês?! É bela, não é?” [pág. 95]. Beleza é algo que não associamos imediatamente a Berlim. Por quê terminar ali?
Este conto tem a ver com a estranheza, a inquietação da Martha e da cidade. O que é que é a beleza de uma cidade, a sujidade de uma cidade. Não sei, acho o final pode ter muitas interpretações. O que sinto é que é completamente diferente ver a cidade estando no chão, respirando o ar, e ver a cidade dentro de um carro, ver a cidade atrás de vidros. Quando se vê a cidade atrás de um vidro transforma-se a cidade num ecrã, como se o vidro fosse um ecrã. Afastamo-nos, como se o corpo estivesse ausente da cidade. Se fizermos um percurso numa cidade dentro de um carro fechado não sei exactamente se estivemos na cidade. Basta às vezes baixar o vidro e respirar o ar, já muda um pouco. Os sons. Talvez o final ela esteja a ver a cidade como algo distante, como se fosse um quadro e ai pode estar mais atenta a essa beleza da cidade, mas que já não é a cidade, é outra coisa qualquer.

Depois de ler o conto, a Martha fez-me lembrar Mersault [O Estrangeiro, Albert Camus] no sentido da inconsequência, de se natural nos seus desejos naquela “loucura da sinceridade” de que falava Camus. Ela tem uma ingenuidade e aos olhos dos outros é vista como uma estranha. É ela que representa a cidade ou é a cidade uma representação dela ou são uma fusão?
Ela, para já, a Martha, é muito nova. Depois há uma mudança ali de tempos, mas também pode ser interpretado como um conflito entre, lá está, uma cidade cheia de memórias, cheia de passado, um passado muitas vezes trágico, e de repente alguém que quer viver, que está zangado com a cidade, quase que cospe na cidade, porque para ela a cidade é demasiado memória e ela quer ter direito à sua vida como se pudesse querer viver numa cidade que começasse agora. Estou a pensar agora nos primeiros habitantes de Brasília. Se de repente uma cidade que não tem passado, e no século XX há algumas experiências com cidades que não têm passado. A cidade está a começar e a vida delas também está ali a começar. Numa cidade como Berlim, ou como Lisboa, de repente há um passado gigantesco e no nosso caso, Lisboa tem um passado muito forte, mas no século XX, apesar de tudo, aconteceram coisas importantes, mas não centrais na questão da Europa. Em Berlim, não. Há uma memória muito recente, muito forte. O que sinto é que aquela personagem, a Martha, tem ali um problema para digerir, é como viver uma pessoa cheia de desejo, de vontade, como viver numa cidade que tem muita História. Como desejar de novo? Como olhar de novo para as coisas?

Uma bicicleta para a fuga, um comboio para um encontro amoroso. Estão em polos opostos, quer em velocidade, quer em tamanho. A cabeça e os pés, em polos opostos, que tal como os dois primeiros, são elementos recorrentes nas suas obras. Estes contrastes são essenciais?
O comboio, se pensássemos numa máquina, não só num meio de transporte, mas numa máquina do século XX, o comboio foi realmente uma coisa, pelo menos da primeira metade, das duas Guerras. O avião não era, tinha mais a ver com uma questão militar. O comboio tem a ver com o humano. A imagem do comboio sempre me atraiu principalmente porque há aqui uma questão de andar em frente, pouca flexibilidade, e velocidade. De repente estamos num caminho e o caminho já está definido, já está a dizer para onde é que as pessoas vão. É muito forte. Não podemos desviar-nos. Isso é algo que ao mesmo tempo me parece muito violento e muito libertador no sentido da pessoa se desligar e de repente é o caminho que está a decidir porque no limite, por exemplo, se a pessoa se puser num comboio que não sabe para onde vai pode relaxar, porque o comboio vai. A bicicleta… eu gosto muito da bicicleta em termos de objecto, acho um dos objectos mais extraordinários já mais inventados. São duas rodas, uma coisa ali no meio que as liga, quase mágica, e em contraponto ao combóio, permite à pessoa ser individual e quase ao ritmo dos pés, se vai para a esquerda para a direita, muito próxima do pé. Ainda não é bem máquina, mas também não é natural, é um upgrade do movimento ainda muito humano. No Bucareste-Budapeste também me interessa esta ideia de uma bicicleta transportar o mais importante, a bicicleta que leva a cabeça de Lenine. No limite é o mais importante pode ser transportado por uma pessoa e de uma forma quase física e não mecânica.

Essas desconstruções são primordiais quando escreve?
Isto sou eu a pensar sobre isso.

Na altura nunca pensa sobre isso?
Não, não. Eu escrevo e pronto. Agora estou a pensar sobre isso, sobre o que escrevi. Em Matteo Perdeu o Emprego fiz isso. Escrevi a narrativa e depois escrevi um texto a reflectir sobre o que escrevi, mas fiz a posteriori, nunca escrevo qualquer coisa planeada, é raro, como “Viagem à Índia”, que parte de “Os Lusíadas”, mas de forma geral, nunca penso previamente à escrita, escrevo como maluco, às vezes só com um tópico, sem saber bem o que é que vai acontecer.

A sensação que fica quando se lê são essas ligações que não são óbvias, que levam a pensar sobre, a pensar em alternativas.
A mim não me satisfaz a ideia de contar uma história, gosto muito que as pessoas leiam, interpretem, vejam as várias camadas, mas é sempre uma interpretação muito individual, também, não é nada simbólico, nunca penso em nada simbólico no sentido a bicicleta representa isto. É agora a posterior a pensar sobre isso, mas se falássemos amanhã poderia pensar de outra maneira sobre o conto que escrevi.

Os livros têm, então, várias possibilidades.
Sim, sim. E até por mim. Posso interpretar o conto que escrevi de formas muito diferentes.

Qual é o medo do século XXI? O que é que nos tolda mais?
O “Breves Notas sobre o Medo”, que agora foi reeditado, é muito sobre medos quase psicológicos, não é um medo como o Lobo Mau. É o medo, por exemplo, de sentir se já fez tudo com 30 anos, o que é que fica agora na vida. Tem mais a ver com medos simbólicos. O medo de não ter feito as escolhas certas. Esses medos interiores continuam a ser muito semelhantes, acho.

Criados pela expectativa?
Sim. Há dois textos que se chamam expectativa. Esperar alguma coisa coloca a pessoa com medo que não apareça aquilo que se anseia. Uma das teorias filosóficas da felicidade diz que a única possibilidade de aceder à felicidade é ter as expectativas muito baixas ou não ter expectativas. A criação de expectativas é sempre uma espécie de criação antecipada de infelicidade porque vai acontecer uma de duas coisas: ou não vai ser como esperamos ou vai ser como esperamos e percebemos que aquilo não resolve. Vai perceber que essa expectativa virada para o exterior não resolve. Alguém que queira ter um filho, queira chegar a presidente. Nesse aspecto, o século XXI continua a ter os mesmos humanos, com as mesmas ambições, viradas para fora, ou não, acho que a tecnologia não mudou o essencial dos medos humanos. Mudou, se calhar, a forma como se expressa, o que é que o outro pensa de mim, hoje se calhar pode ser expresso de uma forma diferente.

Para quem se queria iniciar em Gonçalo M. Tavares, que livro aconselha como porta de entrada?
Os livros são muito diferentes.

Mas eles têm um fio condutor.
Têm, têm um fio condutor, tem ligações, sim, mas mesmo no tom de escrita, a divisão clássica entre o lúdico e o trágico. Diria que o Bairro tem mais a ver com o lúdico, o Reino tem a ver com o trágico e aí, por exemplo, há uma separação. Temos a forma. Há textos com uma linguagem muito seca, no geral a linguagem é contida. Não sei. Quem gostar da ideia de romance mais clássico pode entrar no Jerusalém, no Rezar na Era da Técnica. O Viagem à Índia também é uma possibilidade de entrada, possivelmente mais difícil. É uma história contada com uma forma um pouco diferente entre a prosa e a poesia. Este novo, por exemplo, apanha vários mundos, pode ser um livro de entrada, perfeitamente. Julgo que não seja difícil, é narrativo. Gosto muito da narração, apesar de que um livro não se deve esgotar a contar uma história, mas gosto muito da narração. A narrativa tem uma potência muito forte e acho, sim, Bucareste-Budapeste pode ser, perfeitamente.


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