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Diciembres: entre a memória e a reconciliação

Escrito por em 17/12/2019

O filme de Enrique Castro Rios é um misto de documentário com ficção, tendo por base a invasão deste país pelos Estados Unidos da América em dezembro de 1989.

Cru, com um tempo próprio de respiração, lento, como o de curar feridas profundas, navegando entre as imagens verdadeiras de uma invasão norte-americana que matou, e a família ficcional, representante viva dessa destruição, assim é “Diciembres” (2018), do realizador panamense Enrique Castro Rios.

A 20 de dezembro de 1989, os Estados Unidos da América, à data presididos por George Bush, o pai, com um arsenal mortífero, que durou vários dias, levou à morte de muitos civis já que os ataques não se cingiram a edifícios militares. No bairros de Chorrilho, onde se passa a acção de Diciembres, o ataque foi bastante sangrento já que aqui se encontravam muitos apoiantes do presidente Manuel Antonio Noriega. A intenção norte-americana era capturar Noriega, acusado de tráfico de droga. Este massacre deixou marcas no Panamá. Rios parte daqui para contar a repercussão que a invasão teve numa família 10 anos depois.

Em declarações à imprensa do seu país, Enrique Castro Rios, confesso admirador da fusão entre o documentário e a ficção, assumia que Diciembres pretendia fazer as pessoas “reflectir, analisar e pouco a pouco entender a invasão de maneira mais profunda” para que isso “ajudasse a confrontar os problemas sociais” que proliferam no Panamá, como o “classismo, o racismo, o ódio a si próprio que leva à identificação com o agressor e não com o agredido, esquecendo este último e validando um ato de guerra excessiva e desnecessariamente violento”.

E é exatamente isto que as três pessoas vivas do filme trazem. Elas estão ligadas por um fotógrafo de guerra morto durante a invasão. Os laços vão sendo desvendados aos poucos, o ódio da mãe dele para com a mulher que ele escolheu, preta, algo que ela explicitamente condena, o afastamento do neto, fruto deste relacionamento, e que do pai apenas guarda a máquina fotográfica e uma credencial de imprensa, e do cão, Sultan, única personagem nomeada, pertença do seu filho morto e único ser a quem ela é afecta, como se de um prolongamento se tratasse.

É ele que narra a história, recuando ao seu passado para nos por a par do presente. Sempre que pode, Rios chama a atenção para o que levou aquelas pessoas àquela situação, permitindo o acesso a imagens reais daquele 20 de dezembro de 1989. Mesmo vivo, nunca se sai ileso e essa é a mensagem que Enrique Castro Rios, claramente, pretende deixar. É um filme de reflexão, pensado em cada imagem, cada movimento das personagens, que nas suas expressões entre o vazio, a raiva, o ressentimento, a frustração e o pedido de ajuda deixam perceber o horror vivido no Panamá naquele dia.

A 10.ª edição da Mostra de Cinema da América Latina terminou domingo, depois de exibidos 10 filmes. Em janeiro será a vez de Loulé receber o evento.


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