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Niña Errante: A descoberta na estrada

Escrito por em 15/12/2019

O filme de Rúben Mendonza traz ao primeiro plano a mulher e pôs a Colômbia em polvorosa.

O cinema colombiano não nos chega com frequência. Mais certo será dizer que não nos chega, a não ser na Mostra de Cinema da América Latina. Por isso, Rúben Mendonza, o realizador de “Niña Errante” (2019), filme exibido no sábado, no cinema São Jorge e inserido na Mostra, é um perfeito desconhecido. No seu currículo conta já com várias longas-metragens e uma incursão pela internet mostra que “Señorita Maria, la Falda de la Montaña” (2017), documentário sobre Maria Luísa Fuentes, foi alvo de óptimas criticas, implicando que tudo o que fizesse a partir dali seria escrutinado ao mais alto nível.

A América Latina, de uma forma geral, vive momentos conturbados, de purgação, de luta. O conhecimento da Colômbia será, neste mar à beira-mar plantado e salvo raras excepções, reduzido: cartéis, Escobar, Bogotá, Medellín, Cali. E bananas. Os preconceitos que por lá existem não são do meu conhecimento. Como são vistas as mulheres? A roupa que usam, é um convite à violação? A nudez, é uma oferta? A critica colombiana arrasou o filme de Mendonza, reclamando que as quatro mulheres que o protagonizavam mostravam em cada cena essa oferta. Esta foi um dos pontos. Um outro, centrou-se em diálogos fracos, quando se está na presença de quatro mulheres que pouco ou nada se conhecem. Une-as um pai, apenas presente para a mais nova, e o facto se serem todas mulheres.

A morte do pai, um camionista que deixou a sua semente em várias mulheres, dá o mote para o filme. É no funeral que conhecemos as quatro irmãs, Carolina, a mais velha e com um casamento atribulado, Paula, a mais desinibida, Gabriela, filha de mãe rica, e Ângela, pré-adolescente, já órfã de mãe, e que por isso vai viver com uma tia. São as três irmãs mais velhas quem a guiam nesta viagem, também ela iniciática no mundo feminino. Ângela não tinha tido, até então, qualquer referência feminina. Ao longo dos vários dias de viagem de carro, desde o interior da Colômbia até ao litoral, vemos as quatro mulheres passarem de quase estranhas a cúmplices, de forma natural. É mais nova que dita o ritmo do filme porque é ela quem mais busca entender um mundo que desconhece. É no corpo das outras que ela se começará a ver e a sentir as mudanças no seu, como se elas validassem esse crescimento e não fosse mais estranho. A cena com a irmã mais velha na banheira, completamente nua e grávida, poderá não ser entendida logo de imediato, causar repulsa – afinal, são praticamente desconhecidas – mas são irmãs. Ângela tenta escutar o sobrinho, ainda um embrião, na barriga de Carolina, dando à cena uma ternura que inicialmente não se previa. As quatro são obrigadas a conviver, cada uma com a sua estranheza, são obrigadas a comunicar entre si, sem rede, e esta melhora depois de Ângela fazer a voz do pai ecoar pelo quarto de hotel decadente, mas honesto, no meio da Colômbia.

A crítica foi dura com Mendonza nesta exposição do corpo da mulher, vendo-o como oferta. Neste filme, não se sente em nenhuma momento gratuitidade na nudez, ela tem sempre razão de existir. O realizador quis mais provar que o corpo existe e é de cada um de nós, não estando disponível. As roupas curtas, num país tropical, nem sempre são um convite, que os homens assim poderão interpretar, como na cena da tentativa de violação a Gabriela e Ângela.

O onírico, tão característico do cinema latino-americano, semelhante ao realismo mágico da literatura, também está presente em “Niña Errante” – é assim, aliás, com um comboio num túnel – que se fica a conhecer a pequena. Cenas à frente, Ângela comanda com os pés uma grua, como num bailado contemporâneo, enquanto outra, por trás de si, toca piano – instrumento tocado pelo pai – até o quebrar com violência. Os sonhos de Ângela vão desaparecendo ao mesmo tempo que o seu conhecimento de si e das irmãs vai crescendo.

Assim, “Niña Errante” é um filme iniciático, em que cada uma destas mulheres começa algo depois deste encontro. Um filme sobre as mulheres e o seu poder e liberdade, que traz à discussão os limites, o preconceito e que abre espaço ao corpo como que só a nós pertence.


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