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Yuli: Delicadeza e força na ponta dos pés

Escrito por em 14/12/2019

A 10.ª Mostra de Cinema da América Latina abriu esta sexta-feira com “Yuli”, filme sobre o bailarino cubano Carlos Acosta.

Primeiro, aquele espanhol cubano imperceptível. Vivemos colados a Espanha, mas percebemos o quão difícil, e singular, a língua se torna em cada um dos países onde é falada. As palavras são ainda mais cortadas, às vezes parece que saem como um pequeno sopro da boca. Depois, Havana, com os seus automóveis, para nós, vintage. As cores, as ruas, o teatro. Aí, o filme estaciona no presente e só se move para incursões no passado. É a vida de Carlos Acosta, bailarino cubano, dotado como nenhum outro, que não o queria ser, mas de quem o pai não desistiu. Até aqui, é tudo muito distante: a língua, o país, a figura, e é essa a magia de ver cinema fora do conforto do que se conhece.

Íciar Bollaín, realizadora espanhola, pegou na figura de Carlos Acosta – Yuli era o nome pelo o qual o pai o chamava – e contou-a. O filme está cheio de delicadeza para alguém cuja vida na Cuba dos anos 80 não foi fácil desde tenra idade. A luta entre a vontade do pai, Pedro Acosta, condutor de camiões e visionário, e a vontade de Carlos em permanecer perto da família e se debater contra aquilo que viria a fazer é o que faz a vida avançar. Para o pequeno cubano não foi fácil aceitar que a dança era orgânica, nascera com ele. Um dos méritos do filme é que não oculta nada.

O filme de Bollaín não é apenas o contar, usando atores, a vida de alguém. É isso e usar o próprio para fazer as passagens. Carlos Acosta está em Havana a coreografar o espectáculo da sua vida. É sentado numa cadeira sobre o palco, remexendo nos recortes que o pai sempre guardara, que o ouve chamar. Yuli! Yuli! O pequeno Edlison Nuñez, que interpreta Acosta quando criança, consegue dar toda a rebeldia necessária a Yuli, sem perder doçura. As fugas da escola de ballet, a surra de cinto, a entrada numa outra escola, sua única opção, em regime de internato, são momentos que a realizadora captou com maestria. Bollaín passa da ficção para os ensaios da peça muito suavemente, não deixando que o filme sobre passe a ser um documentário. As coreografias de Acosta, que nestes momentos encarna o pai, e Julio, o seu bailarino e o seu eu, são pujantes e delicados, dando ao espectador a sensação de amor e de violência – na parte da surra – e não o deixando indiferente. Keyvin Martínez, também ele bailarino, traz Yuli na fase adulta, em Turim, em Londres, onde está uma primeira vez e se lesiona, e o seu retorno ao Royal Ballet numa segunda fase onde se assume como um dos maiores bailarinos do Mundo e aceita, finalmente, o seu dom.

Pela riqueza da sua história pessoal, Yuli torna-se um filme com várias camadas que podem ser discutidas, um filme que não é só o contar de uma história de alguém que alcançou o sucesso. Bollaín aproveitou bem essas nuances, puxou-as para a tela, equilibrou, como na dança contemporânea, força e contenção de movimentos, ajudados por uma boa câmara – a destacar o do suicídio da irmã mais velha, esquizofrénica – e deixou-os expressarem-se.


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