Trans: Celebrar os 40 anos com um pé no futuro

Escrito por em 04/12/2019

Tribade, Continuadores e Songø são apenas três dos mais de 100 artistas que passam por Rennes estes dias numa celebração musical que teve início em 1979. O Rencontres Trans Musicales de Rennes (Trans), na Bretanha, noroeste de França, promove anualmente encontros de culturas e géneros musicais sem preconceitos, fruto do elevado grau de melomania do diretor e programador Jean-Louis Brossard.

Desconhece-se outro festival com cem atuações em que o seu o responsável seja visto frequentemente a correr de um lado para o outro, a dar entrevistas, a participar nas conferências de imprensa, a aplaudir as bandas e, espantem-se, a incentivar encores – e não julguem que corre apenas em “casa”, pois já foi visto a “voar”, literalmente, no festival de Benicassim, em Espanha, ou mais recentemente no festival Mil, em Lisboa, onde esteve pela segunda vez em março de 2019, e onde recolhemos o curtíssimo depoimento que se segue sobre as Tribade, que acabara de ver e que leva agora ao festival bretão, apesar de na altura se desfazer em risos e deixar apenas a proveniência do trio.
 
 
Tribade: De BCN a ‘Mil’ para o Trans
Tribade é um trio feminino de rap formado em Barcelona (BCN) por Bittah, Masiva Lulla e Sombra Alor. Por detrás da Barcelona da moda, existe uma capital catalã protagonizada pela classe trabalhadora. É essa a realidade que as Tribade cantam, fiéis à cultura original do rap e a sua missão de denúncia e empoderamento através do ritmo e da poesia. Musicalmente, Barcelona não é apenas mestizo, rumba e fiesta: Tribade criam uma amálgama original de flamenco, soul, afrotrap e reggaeton. Atuam a 6 de dezembro, no Hall 8, do Parc Expo.

Continuadores de Moçambique
Tributo multimédia aos primeiros anos de Moçambique como nação independente com base no conceito do então Presidente Samora Machel – com o propósito de promover os Direitos da Criança e a transmissão de valores, como o patriotismo, solidariedade e unidade nacional -, o duo Continuadores alia a distinta voz de Ailton José Matavela e os sons oníricos rendilhados por Tiago Correia-Paulo. O histórico clube Ubu, no centro de Rennes, será a sua casa no dia 5 de dezembro, às 17:45.

O regresso dos Songø a Rennes
Os Songø tocaram na celebração do 40.º aniversário do Trans Musicales, também no Ubu, a 14 de junho de 2019 – inicialmente o festival decorria anualmente em junho e deu os primeiros passos nesse mesmo local. O seu curioso afropop psicadélico tem origem em França, África do Sul e Burkina Faso. Atuam a 7 de dezembro, no Hall 8, do Parc Expo.

Outros destaques do 41.º Trans
Da pop psicadélica do sudeste asiático dos Yīn Yīn (País Basco), ao techno brasileiro de Victor Ruiz, e a Velvet Negroni (norte-americano da editora 4AD, na qual editou recentemente “Neon Brown”), passando pelos U-zhaan & Roy (Japão), Vincent Black (França), Shlagga (França), Shht (Bélgica), Pletnev (Lituânia), NST & The Soul Sauce (reggae da Coreia do Sul), Mush (Reino Unido), Liraz Charhi (Israel/Irão), Étienne Daho (francês que dispensa apresentações) ou Ácido Pantera (Colômbia), muitos são os nomes mais ou menos conhecidos – regra geral menos – da presente edição do Trans.

A criação de uma lenda
Depois de um formato inicial mais ou menos caseiro, o Trans teve um crescimento significativo na transição dos anos oitenta para os noventa, altura em que passou a ser conhecido como “festival das descobertas”. Massive Attack, Nirvana, Björk, Portishead, Beck, Lenny Kravitz, Daft Punk, The Chemical Brothers ou Ben Harper, só para citar alguns, foram nomes dados a conhecer, na Europa Continental, por estes “encontros especiais”, chamemos-lhes assim.

No Trans, ao longo dos últimos 23 anos, testemunhámos atuações premonitórias, como os primeiros passos de Goldfrapp, Nitin Sawhney, Delta 72, Make Up, Bobby Conn, Gotan Project, Nicola Conte ou Zero 7, artistas que em início de carreira mostraram o seu trabalho a pouco mais de duzentas pessoas.

Na 25.ª edição, Ben Harper e Beth Gibbons ofereceram prendas especiais ao festival: o primeiro atuou sozinho em palco e segunda reuniu-se com os franceses Le Peuple De L’Herbe para interpretar temas de “Dummy”, álbum de estreia dos Portishead. E fizeram-no sem cachet, agradecendo o “empurrão inicial” oferecido pelo festival.

Portugueses que deixam saudades
Por lá passou também Paulo Furtado, o nosso compatriota Legendary Tigerman, deixando os franceses boquiabertos e a pedir dois encores, em 2003, no La Cité (saudoso espaço na zona velha de Rennes que entretanto foi demolido…). Com similar nostalgia, recorda-se a passagem de General D por Rennes na apresentação do disco “Pé Na Tchôn, Karapinha Na Céu” (1996). DJ Ride (2009) e os Batida (2010) fecham o estrito leque de artistas lusos que atuaram no principal festival de música da capital bretã.

A par de festivais como o SWSX (Austin, Texas, EUA), Dour (Bélgica) ou Primavera Sound (Barcelona, Espanha; Porto, Portugal), a importância deste evento é reconhecida internacionalmente, na medida a que ele acorrem profissionais do meio musical, imprensa e até mesmo organizadores de festivais de locais tão distintos quanto Japão, Coreia do Sul, Austrália, Alemanha, Reino Unido, Brasil, Canadá ou EUA. Não estranhe se desconhecer os nomes dos mais de 100 artistas da presente edição do Trans, sendo natural que venha a ouvir falar neles mais tarde. Se não acontecer, foram erros de casting. Arriscar faz parte do jogo.

Mudança indesejada
Apesar do eixo do Trans ter iniciado uma gradual mudança em 2011, o Parc Expo do aeroporto de Rennes tem sido desde 2004 a casa central do festival. Até 2003 o habitat do Trans era o pavilhão Liberté, situado na baixa da cidade, mas as demoradas obras de remodelação aliadas às políticas de ruas sem distúrbios de Sarkozy afastaram o «festival desordeiro» – alusão aos conflitos entre a polícia de choque e os fãs da banda punk francesa Bérurier Noir, reunida exclusivamente para celebrar os 25 anos do Trans – do centro da cidade para o aeroporto, a 7 kms de distância.

Apesar da organização tentar suavizar a mudança, a mesma descaraterizou e penalizou o evento, sobretudo ao nível do conforto, urbanidade e meios de transporte. Dadas as dimensões do novo ‘quartel-general’, o festival teve um incremento do número de espectadores.

Bars en Trans
A decorrer nos mesmos dias e em paralelo ao Trans Musicales, o Bars en Trans é um festival de música espalhado pelos bares do centro de Rennes. O objetivo principal é oferecer um palco a artistas em início de carreira que por vezes regressam em anos futuros para atuarem no Trans Musicales. Os estudantes universitários, sobretudo os que têm menos poder de compra, agradecem a generosa oferta dos espaços noturnos da cidade. Inicialmente gratuito, com a promoção almejada pelo famoso “boca-a-boca”, o Bars en Trans tem agora entradas reservadas a um preço simbólico.

41.º Rencontres Trans Musicales de Rennes
Le Parc Expo Rennes Aéroport Hall 3, Hall 4, Hall 8, Hall 9, Le Triangle, L’Ubu, Les Champs Libres, L’Aire Libre, TNB, L’Étage
França, 4 a 8 dez 2019
www.lestrans.com

26.º Bars en Trans
Diversos bares no centro de Rennes
França, 5 a 8 dez 2019
www.barsentrans.com


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