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Tigerman e Maria de Medeiros: viagem pelo princípio da música

Escrito por em 25/11/2019

O concerto de Legendary Tigerman e Maria de Medeiros decorreu no último sábado, dia 23 de novembro, no Teatro São Luiz, em Lisboa, inserido no Misty Fest.

A proposta de Paulo Furtado, aqui como The Legendary Tigerman, e Maria de Medeiros, a atriz que em 2007 editou um álbum pela primeira vez, é fazer o público ver filmes durante uma hora e meia.

Estar numa sala de teatro a ouvir música que nos transporta para imagens. Uma proposta, no mínimo, arrojada. O palco não precisa de nada, além dos seus atores e instrumentos. Um jogo de luzes simples aquece e arrefece a sala do São Luiz conforme a toada. A bem da verdade, o repertório é quente, muito quente. Da “gangsteriocidade” nova iorquina, à Paris das catacumbas e seus clubes escondidos, à romântica Itália, dando um salto a uma Alemanha sensual e doce.

“É tão bom estar de volta a esta jóia de Lisboa que é o São Luiz”, diz Maria de Medeiros. A sua imagem de sempre mantém-se intacta, ao longe a mulher de 54 anos parece uma “petite française”. Com a sua franja irrepreensível, o cabelo negro caído nos ombros sobre o vestido preto, de manga boca de sino, sapato de verniz que, num jeito meio sem jeito, bailou várias vezes durante a noite. Aquelas mangas combinam com as calças de Tigerman, bem abertas em baixo, ambos num estilo intemporal, que ao mesmo tempo é definidor da nossa Era onde tudo é possível. Tudo a condizer com aquelas guitarra, baixo, contrabaixo, sax – um saxofone é o melhor aquecedor de invernos e o ambiente agradece – e bateria.

“Love Ride”, do próprio, “24 Mila Baci” – que dá nome ao concerto – foram das primeiras músicas tocadas antes de Maria de Medeiros parar para uma pequena homenagem.

“Há dois dias deixou-nos um músico muito importante, o Zé Mário Branco. Vamos celebrá-lo, então um bocadinho. É para ele o próximo momento”. E recitou, com um leve trinado da guitarra, “Aniversário”, de Álvaro de Campos que fundiu com “Shadow Girl”, uma música que faz parte do álbum de Maria “Pássaros Eternos” (2012) e que Tigerman a ajudou a compor.

Maria de Medeiros tem uma voz suave, que transporta e acalma. Pode soar cliché, mas é a melhor forma de a descrever. Parece comedida, tímida, mas, parece, tudo não passa de um jogo cénico para uma personagem que ali encarna quando à sua frente está um microfone. É espantoso o que fez de seguida: francês, alemão, português, inglês. Em todas as línguas a sua voz encaixa em perfeição e ganha diferentes tons consoante a pronúncia. Tornou-se cavernosa com “Indian Song” (do filme de Marguerite Duras com o mesmo nome).

“Esta canção descobri-a quando era adolescente aqui, no São Luiz, quando passaram o filme da Marguerite Duras. É uma daquelas canções que nos habita”, contou. De Jeanne Moureau passou para Dietrich. “A Maria vai cantar uma música que ela é que sabe pronunciar o nome”, adiantou-se o co-protagonista. Ich bin von Kopf bis Fuss auf Liebe eingestellt ganhou doçura na voz da cantora que na música seguinte regressou a Portugal para a sua “Diz que é fado”.

Num momento “gangster”, “Tango Till They Sore” (Vencidos pela Lei, 1986), juntou os dois, que levaram o público a uma viagem pela ruas de Nova Iorque. Houve tempo para “Far as Stars” e “This Boots are Made for Walking” (Nancy Sinatra), a versão que ambos gravaram para o álbum de Paulo Furtado de 2009, “Femina”, e que encerrou a primeira parte.

O concerto fechou com recitação do poema de Paulo Furtado “Amor Quântico por Maria de Medeiros”, “Speak Sofly Love” (O Padrinho II) e “Fever”. Nesta noite, não houve artifícios a desviar o ouvido daquilo que se passa no palco. O brilho foi deixado às palavras e aos instrumentos que as vestem de gala para que o deleite se prolongue o mais possível pelo resto da noite, quando os corpos abandonam a sala de baile.


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