O “monstro” indomesticável de João Guimarães Rosa

Escrito por em 25/11/2019

A editora Companhia das Letras fez o lançamento oficial de “Grande Sertão: Veredas” no passado dia 20 de novembro, na Livraria da Travessa, em Lisboa, uma data que assinala os 52 anos da morte de Rosa.

Comecemos por situar João Guimarães Rosa, se é que isso é possível. Pelo menos no tempo e na sua vasta obra. João Guimarães Rosa nasceu em 1908 e morreu 59 anos depois. Foi: escritor, diplomata, novelista, romancista, contista, médico. Escreveu: “Grande Sertão: Veredas”, “Saragana”, “Corpo de Baile”, “Tutaméia”, só para citar alguns. “Ele nunca se repete”, explicou Clara Rowland, professora de Literatura Brasileira na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

Conhecedora profunda da obra do escritor brasileiro, Clara Rowland contou que o próprio tinha uma espécie de compêndio de tudo o que tinha usado para que nunca a invenção passasse a repetição. “Língua nómada”, “mutação”, “vínculo entre paisagem e língua selvagem moldada numa paisagem literária”, “criar um mundo através da língua”. “Ler Guimarães Rosa é aprender esta língua”. O acima descrito são formas que Clara Rowland e Silviano Santiago, professor e estudioso da obra de Rosa, usaram para descrever o escritor.

Silviano Santiago vem propositadamente do Brasil para a apresentação do livro. Habituado a estudar quem se dedicou à escrita, encontrou em Rosa um quebra-cabeças. “É um livro para ler com os ouvidos”, disse. “[Grande Sertão: Veredas] Bagunçou a Literatura Brasileira, uma espécie de Adamastor”. E quem foi Adamastor? “Um monstro. É um monstro alegórico. Quiseram domesticá-lo, trazê-lo para perto de Euclides da Cunha [escritor brasileiro do final do século XIX e principio de XX]” e esse, acredita, é o maior erro que se pode cometer com o livro. “A monstruosidade dá-se no decurso da leitura”, afiança. A trama é “relativamente fácil. Ele inventa a literatura e o leitor acompanha, ou não. Não há protocolo de intenção”, acrescenta.

Quem estiver relativamente familiarizado com Rosa, ou que por alto já tenha ouvido falar, saberá que a linguagem, e o uso que dela faz, são o seu diferencial. Inventou, inventou muito, mas há uma consistência nesse invencionismo que o distingue e que não o coloca em qualquer grupo. “Não é um vanguardista, é um experimental”, acredita Silviano Santiago, já que “ a vanguarda trabalha com grupos, com manifestos. Rosa era livre, não tem compromisso com ninguém”.

Quando falamos de sertão a primeira imagem é a aridez. Secura. Vento que mia e corre solto. O de Guimarães Rosa em nada é seco, é “o contrário, é o do Rio São Francisco, do rio capital, é a opulência da Natureza. Guimarães Rosa é verborrágico. O demónio aparece 38 vezes, nas mais variadas formas. Numa época em que o menos é mais, nele é mais mais”, completou o professor brasileiro.

“Grande Ssertão: Veredas” tem como cenário possível o ponto de contacto entre a Bahia e Minas Gerais. Alguns lugares são reais, outros fruto da imaginação de Rosa. Riobaldo, jagunço, é o senhor da história, o narrador-protagonista. A história não é linear, a linguagem, muitas vezes, não é regionalismo, mas criações do autor. É, portanto, toda uma aventura de leitura.

Silviano Santiago comparou “Grande Sertão: Veredas” a “Ulysses”, de James Joyce. “É um livro arrogante, no bom sentido. Ele queria fazer aquilo que fez: Eu quero ser uma figura extraordinária”.

O ideal ao partir para este “monstro” é ir sem armadura, sem medos ou preconceitos. Contou Clara Rowland que numa das suas aulas em que os alunos tiveram de ler o livro, uma inglesa, em Erasmus, foi a primeira a terminar, muito antes do que qualquer outro falante da Língua Portuguesa. “Já terminaste? Perguntaram-lhe os outros com espanto. Sim. Quando leio um livro em português não espero entender tudo, disse ela”.


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