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Maria Gadú em Lisboa: “Vamos nos munir de palavras”

Escrito por em 18/11/2019

A cantora brasileira atuou na última sexta-feira no Teatro Tivoli, em Lisboa, inserida no Festival Misty Fest. Pelle é a despedida dos palcos.

Do lado esquerdo do palco, três congas, ao meio uma cadeira, um amplificador, um pedal, viola e violão. A luz, intimista. Todo o resto do palco imenso do Teatro Tivoli era breu. Maria Gadú subiu vestida de negro, com os seus óculos redondos, cabelo louro. Abriu com a sua última composição, “Mundo Líquido”, um grito de urgência para a preservação do Brasil, da sua identidade, dos indígenas. No embalo, “Dona Cila”, dos primórdios das suas criações, mais doces. Não parece, o seu ar juvenil engana, mas Gadú já entrou nos 30. Ao seu lado, na percussão, Junior do Vale, também ele brasileiro, que veio morar para cá e com quem Gadú se reencontrou na noite anterior, por acaso. “A gente se trombou na rua. Convidei para estar aqui hoje [noite do concerto]. O Júnior está morando aqui, colectivamente, resistindo”.

Pelle é a digressão de despedida da cantora brasileira. “Que massa voltar! Estava com saudade. É bonito comemorar esse momento de final de ciclo. Estou cansada dos palcos. Não tinha como não passar aqui. Tudo são ciclos e tudo é impermanente, né, gente?”. Ao seu lado, um copo de vinho português. “O vinho é muito bom, óptimo!”.

A sala é enorme, com pés muito altos, mas isso não retirou intimidade e aconchego ao concerto. Gadú fez questão que ele fosse uma troca entre ela e eu. E tu e ele. Deixou que as músicas embalassem – “Shimbalayé”, das ondas do mar, “Bela Flor”, “Tudo Diferente”, “Lily Braun”, composição vintage de Chico Buarque e Edu Lobo, num interpretação teatral, a respirações certeiras, sobre a mulher subjugada ao homem para logo passar para “Triste, Louca ou Má”, de Francisco, El Hombre, mulher dona do seu nariz, e “Lounge”, a sua música pura sedução – e no curto intervalo, conversava.

“Não acredito mais no formato, nas músicas para pessoas. Eu quero fazer música com pessoas. Estamos em tantos lugares sem estar. Como diz Caetano, na música Oração ao Tempo, “(…)Ainda assim acredito/ Ser possível reunirmo-nos/Tempo tempo tempo tempo/Num outro nível de vínculo/ Tempo tempo tempo tempo (…), é o que desejo para a gente”.

Ao baú foi buscar “Adoniran Barbosa”, música da velha guarda, conhecido por ser o pai do samba paulista, e a sua “Iracema”, que só me faz lembrar da índia de José de Alencar no seu livro homónimo. Porque não é possível olhar para Pelle como um desenrolar de canções, sem perceber que elas sequenciam todas as preocupações da cantora: das origens do Brasil, das matas, dos índios, dos bichos. Assume, então, que tem depressão, mas que esse não é o mal do século. “O mal do século é a carne. Você inspira e esta inspirando o quê? Metano, peido de boi!”. Seguiram-se reverências a Marisa Monte com “A Dança da Solidão”, e a Adriana Calcanhotto, com “Esquadros”, a Mayra Andrade, com ela, composição sua para a amiga xará, e Amor de Índio.

“Ne Me Quitte Pas” esteve sempre em todos os seus concertos, como canção-talismã. Começou com a viola, que logo abandonou, afastando, também o micro, e deixou-se ir, como se estivesse em casa. “Axé Acapella” também foi levado à letra. “Hoje canto para a cultura brasileira”.

O fim deste espectáculo não podia ser mais surpreendente, com “Tic Tic Tac (Bate Forte o Tambor)”, da banda Carrapicho, remota música dos anos 90. Só quem não esteve atento aos gritos de alerta de Gadú ao longo de duas horas pode ficar atónito. “As barrancas de terras caídas/Faz barrento o nosso rio-mar/Amazonas, rio da minha vida/Imagem tão linda que meu Deus criou/Fez o céu, a mata e a terra/Uniu os caboclos construiu o amor”.

Há muito que a música de Maria Gadú tinha ganho um carácter mais orgânico e de apelo. Não político, mas de consciência humanitária, para que nos olhemos melhor e tentemos permanecer no “Bem” o máximo de tempo que aqui estivermos. “Axé e gratidão”, Maria Gadú repetiu várias vezes.


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