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Livro de James Baldwin editado em Portugal com 65 anos de atraso

Escrito por em 12/11/2019

O romance de estreia do escritor norte-americano James Baldwin, “Se o Disseres na Montanha”, considerado o mais importante da sua obra, está pela primeira vez disponível em Portugal, mais de 65 anos depois de ter sido escrito.

Editado pela Alfaguara, “Se o Disseres na Montanha” (“Go tell it on the Mountain”), foi escrito originalmente em 1953 e recebido com excelentes críticas, tendo o próprio autor chegado a afirmar que “se só pudesse escrever um livo na vida, seria este”.

O romance chega às livrarias portuguesas no dia 19 de novembro, sucedendo-se à publicação de “Se Esta Rua Falasse”, em setembro do ano passado, também pela Alfaguara.

A estreia, em 2017, de um documentário adaptado de um dos seus livros, “Eu Não Sou o Teu Negro”, e a posterior adaptação cinematográfica, por Barry Jenkins (premiado realizador do “Moonlight”), do romance “Se Esta Rua Falasse”, em 2018, que valeu um Oscar de melhor atriz secundária a Regina King, ajudaram a relançar a obra do ativista negro James Baldwin, falecido em 1987, que ficou como um dos nomes maiores da literatura norte-americana e uma das vozes mais influentes do movimento dos direitos civis.

“Se o Disseres na Montanha” é o primeiro e o mais ambicioso romance de James Baldwin, que se constituiu desde logo como um marco para muitos outros escritores, ao mesmo tempo que foi conquistando o lugar de clássico da literatura americana, afirma a editora.

Inspirado na juventude do autor, o romance retrata a luta dramática de John Grimes, um jovem que procura desenhar a sua individualidade no seio de uma comunidade segregada, no bairro nova-iorquino do Harlem.

John Grimes quer para si um destino diferente daquele que a família e a comunidade lhe reservaram: o de seguir os passos do padrasto, ministro da Igreja Pentecostal. Mas, numa comunidade discriminada, a liberdade de escolher pode não estar nas suas mãos, ou pode condená-lo a uma segregação ainda mais profunda, dentro de si e entre os seus semelhantes.

Com uma “precisão lírica e um poderoso simbolismo, com fúria e compaixão”, Baldwin espelha em John a luta que ele próprio travou pela autodeterminação — emocional, moral e sexual —, transformando a sua história individual na odisseia colectiva de um povo marcado pela segregação, descreve a Alfaguara.

Ao escrever “Se o Disseres na Montanha”, James Baldwin não só criou novas possibilidades para a literatura dos Estados Unidos, como permitiu aos americanos despertar para uma nova forma de se verem a si mesmos.

Romancista, ensaísta, dramaturgo, poeta e crítico social norte-americano, James Baldwin, negro e homossexual assumido, nasceu em Nova Iorque em 1924 e desde cedo se bateu contra o racismo e a discriminação social, em nome da defesa dos direitos dos negros e dos homossexuais.

Em 1948, partiu para França, fugindo ao racismo e homofobia do seu país natal. Em 1953, publicou o primeiro romance, destacando-se entre as suas obras mais importantes “O Quarto de Giovanni” (a ser publicado também pela Alfaguara em 2020), “The Fire Next Time”, “Going to Meet the Man”, “Notes of a Native Son” e “Another Country”.

James Baldwin destacou-se desde cedo como romancista, ensaísta, poeta e dramaturgo, mas, a par disso, notabilizou-se como uma das vozes mais influentes do movimento de direitos civis, tendo sido o primeiro artista afro-americano a aparecer na capa da revista Time.

Travou essa luta na vida e na escrita, tendo publicado até à morte mais de 20 livros, entre ensaios, romances, contos, poemas e peças.

Uma dessas obras é o manuscrito incompleto “Remember This House”, que serviu de base ao realizador Raoul Peck para fazer o documentário “I Am Not Your Negro”, filme que traça uma viagem à história negra norte-americana, ligando o passado do Movimento dos Direitos Civis ao presente do movimento ativista Black Lives Matter.

O filme cumpre o desejo manifestado em vida por James Baldwin de contar a história do racismo nos Estados Unidos, com relatos sobre as vidas de três amigos seus assassinados: os líderes ativistas Medgar Evers, Malcolm X e Martin Luther King Jr..

Ao levar James Baldwin para Hollywood, os filmes baseados nas suas obras trazem também à atualidade os temas que o autor sempre tratou, como as complexidades sentidas, embora não totalmente assumidas, nos anos 1950 e 1960, sobre a sexualidade e sobre a distinção de classes raciais nas sociedades ocidentais, em particular nos Estados Unidos.

O seu trabalho tem sido recuperado igualmente por outros autores que procuram afirmar a sua relevância na atualidade como em 1967, sendo múltiplos os textos que salientam a necessidade de se ler Baldwin para compreender os Estados Unidos da América hoje, sob a presidência de Donald Trump.

As preocupações de James Baldwin em torno da condição humana são particularmente exploradas nos seus ensaios “Notes of a Native Son” (1955) e Nobody Knows my Name: More Notes of a Native Son” (1961).

Alguns textos ensaísticos do escritor e ativista assumem a dimensão de livros, como acontece com “The Fire Next Time” (1963), “No Name in the Street” (1972) e “The Devil Finds Work” (1976).

Ao longo da sua vida literária, James Baldwin transformou também em ficção e em peças as suas dúvidas e os seus dilemas pessoais, relacionados com as pressões sociais e psicológicas que tornavam impossível integrar e igualar na sociedade tanto negros como homossexuais e bissexuais.


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