Geovani Martins: “O meu lance sempre foi com as palavras”

Escrito por em 02/11/2019

“O Sol na Cabeça” chegou a Portugal este ano, um livro de contos escrito na favela sobre a favela, numa época de transformação do Brasil. Aos 28 anos, o seu autor, o carioca Geovani Martins, não esperava “a proporção que essa publicação iria tomar”.

A ponte cultural Portugal-Brasil, ou vice versa, é há uns supersónica. As trocas são muitas, às vezes a solo, outras em parceria. Música, literatura, cinema, teatro, a mistura de sotaques de uma mesma língua, as suas variações e ondulações que se misturam. Geovani Martins, de quem se fala neste texto, esteve por cá para participar no Folio, o festival literário de Óbidos, que este ano falou do medo, e depois de terminado o certame passou por Lisboa. E foi aí que o ouvi. “Tranquilão”, de ar tímido e reservado, cabelo farto e cheio de pequenos canudos, com umas mechas louro-alaranjado, falou do seu livro primeiro, e único para já, “O Sol na Cabeça”. São contos sobre o que tão bem conhece, a favela.

Agora mora no Vidigal, numa casa com máquina de escrever. Ele próprio se considera “um escritor de intervenção”. Escreve no papel e depois na máquina. “Escreve, reescreve, corta. Não fica só na primeira opção. Primeiro parágrafo na máquina. Tá ruim? Desço. Escrevo de novo. Tá ruim? Reescrevo. Quando já tá bom, pego numa folha nova e escrevo o segundo parágrafo. E assim continuo, revendo e relendo”. Um processo cuidado, de artesão, num Mundo em constante urgência.

A história de Geovani com as letras também é peculiar. Deixou a escola na 8.ª série (equivalente ao 9.º ano), foi reprovado duas vezes. “Muito conflituosa, pouca liberdade”. Foi nas horas fora da escola que tomou o gosto pela leitura e porque em si já pulsava um escritor. A revista Setor X e a FLUP (Festa Literária das Periferias) foram preponderantes para que se pudesse mostrar. A TunetRadio aproveitou a passagem por Lisboa do escritor carioca para uma pergunta-resposta em que os portugueses se misturam.

Numa das entrevistas que li suas, você dizia que convenceu a sua mãe a apostar de novo em você, que ia ficar um tempo sem trabalhar para escrever. Isso me lembrou a história do Garcia Marquez quando escreveu Cem Anos de Solidão, desempregado na altura e apostando todas as fichas na obra. Que sentimento definidor é esse que faz com que se tenha a certeza que determinada escritura vai mudar a vida? Não pode ser só fé.

Naquela época, já tinha uma certa consciência do potencial de meu próprio trabalho. Meus textos circulavam e uma parte da cena literária, principalmente carioca, se mostrava bastante entusiasmada de certa forma já esperava que mais cedo ou mais tarde, publicasse um livro. Eu já tinha recebido dinheiro algumas vezes para publicar alguns contos, o que de fato mexeu com minha perspectiva. Minha mãe acompanhava esse movimento, também por isso, acredito que se sentiu ainda mais motivada pra apostar em mim. Apesar disso, se fosse escolher um sentimento definidor para a época em que trabalhava nesse livro, certamente seria o desespero. Se a confiança existia, a incerteza pulsava ainda mais.

Era tudo muito urgente. De alguma forma, parecia que aquele projecto de livro era minha última chance de trabalhar com arte. Já havia tentado na música, no teatro; aprendi muito com essas passagens, e também nelas compreendi que o meu lance sempre foi com as palavras. Com vinte e quatro na época, há seis morando sozinho, pulando de casa em casa, eu sentia que precisava fazer alguma coisa com a minha vida.

Todo esse desespero contribuiu para o processo de criação do livro. Assim como as minhas questões sobre o porvir, sobre o que pode ser o futuro, naturalmente se infiltraram em meus personagens. Foi um período de trabalho muito intenso, de imersão. Trabalhava pelo menos 6 horas por dia, tentava tirar folga nos fins de semana, mas aquelas histórias não me deixavam por nem um segundo. À medida que fui avançando com os contos, mostrava à família a aos amigos, fui ganhando confiança e no fim do trabalho, tinha toda a certeza que alguém se interessaria por publicar o meu trabalho. Só não podia ter a noção da proporção que essa publicação iria tomar.

O seu livro parte de uma base real. A favela como um todo: nos seus maneirismos, com a sua violência, o seu sentido de comunidade, a sua gíria, a vida em comum com os bairros chiques do Rio. A maioria dos escritores têm sempre uma base da qual partem, um fio condutor. Esse mundo é o seu fio condutor? O que ficaria se te retirassem a favela? Você falou da vontade de sair do Rio e ir para o Nordeste.

Ficariam os personagens. Me interesso por gente, é por isso que escrevo. Naturalmente, meu trabalho se alimenta bastante do universo das favelas, por intimidade e por fascínio, mas a realidade é que escrevo histórias sobre esses personagens, esses personagens vivem em favela. Então as favelas são o cenário, um cenário muito rico e que me dá muitas possibilidades, é verdade, mas não mais que isso. Penso a mesma coisa sobre o trabalho de linguagem.

Considero parte fundamental do texto, mas sempre como um meio de me ajudar a contar uma história. E o desejo de me mudar para alguma cidade no nordeste brasileiro passa por isso. Nas cidades que passei tive oportunidade de conhecer pessoas muito fascinantes, que certamente me ajudariam a criar personagens interessantes. Os diferentes sotaques e expressões populares também são algo que me fascina.

Estive em Londres algum tempo atrás e passei duas semanas em Brixton, um bairro muito interessante, que reúne gente de várias partes do mundo, principalmente da jamaicanos e africanos de diversos países. No tempo que estive lá pensei muito sobre como gostaria de me aprofundar naquele universo, em como poderia encontrar ali boas histórias. O que me interessa em especial é o que é humano. Por sorte, isso vem junto com todo um universo.

Você é um observador da realidade, isso fica claro na sua escrita – além dos olheiros que você próprio falou que tem – por isso qualquer movimento para você pode dar uma história, ou principiar alguma. Além disso, como você frisou, não há julgamentos morais. Como é viver dentro dessa realidade, que em muito precisa ser alterada, que ao mesmo tempo que te tira te dá a matéria prima?

Procuro estar atento. Tentar entender os movimentos em volta e propor discussões sobre o que acho relevante.

O Brasil sempre foi um país em convulsão, com anos de ajuste, e vivendo agora quase que uma implosão. O caos/violência mexem mais e melhor com a criatividade?

Eu acho que esses tempos mexem sobretudo com o significado das coisas. Por exemplo, antes do Rio de Janeiro viver os seus dois últimos anos batendo recordes em termos de violência policial, eu já tinha a ideia para o romance que estou escrevendo agora. Acontece que agora a história que vinha elaborando se torna muito mais urgente, em virtude dos acontecimentos dos últimos anos.

Nesses tempos convulsos, a criação fica mais dependente da necessidade de combate que da criatividade ou não?

Certamente a criação é atravessada pelo seu tempo. Mas, pelo menos no meu caso, tento não ficar apenas reagindo o tempo todo.

O seu processo criativo é muito interessante, rudimentar, diria, num tempo em que acelerar parece ser a palavra de ordem. Você disse também que o estilo é vital, que ele te levou a demorar até 6 meses num conto. Para você a mensagem nunca pode se descolar desse cuidado estilístico, no sentido em que escrever de rajada nunca será algo que você consiga?

A razão de eu escrever primeiro à mão, num caderno, é justamente pra poder ter esse momento de despejar aquela história da maneira que me vier a cabeça. Acho importante essa escrita espontânea também, dela sempre surgem coisas interessantes. Depois de passado esse sentimento primeiro, acredito realmente que todo texto merece ser lapidado o máximo possível. Até em virtude da própria trama.

Havia uma brecha a ser preenchida no panorama literário brasileiro por essa literatura periférica, uma escrita que falasse do real que todo o mundo vê, mas que se achava não ser digna de figurar em livro?

Havia uma necessidade de novos olhares sobre o Brasil. A brecha foi aberta tanto pelos autores quanto pelo público, que vem se transformando consideravelmente nos últimos anos.


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