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Topografias Imaginárias: o som da cidade em sessões de cinema e visionamentos comentados

Escrito por em 07/10/2019

A 6.ª edição do Topografias Imaginárias – ciclo de cinema e de visionamentos comentados, com entrada gratuita – organizado pelo Arquivo Municipal de Lisboa – Videoteca, em parceria com o Ifilnova – Instituto de Filosofia da Nova – realiza-se uma vez por mês até dezembro: 19 de outubro, 9 de novembro e 7 de dezembro, com filmes em três locais de Lisboa e o lançamento de um livro.

Sob o tema Sinfonia Urbana, este ciclo de visionamentos comentados é dedicado a um dos lados mais esquecidos da criação cinematográfica e da vivência da cidade: o som. Pretende-se, assim, pensar a cidade na relação com a sua atmosfera sonora e musical, como o cinema veicula uma certa imagem sonora de Lisboa, analisando, ao mesmo tempo, o papel das várias sonoridades na apresentação e constituição de uma expressividade que é reconhecida como sendo a desta cidade.

Neste sentido, e com o objetivo de aproximar os participantes e espectadores-ouvintes dos locais e das atmosferas sonoras e musicais dos filmes programados, este ciclo faz um percurso pela cidade e pelo cinema: cada filme é projetado e comentado num local onde foi rodado, sendo assim possível ter ao mesmo tempo uma experiência da sonoridade do filme e da cidade real e atual onde este foi realizado.

Belarmino, de Fernando Lopes (1964) será exibido, a 19 de outubro, no Grupo Desportivo da Mouraria, onde Belarmino Fragoso praticava boxe. Kilas, O Mau da Fita, de José Fonseca e Costa (1980) é mostrado, a 9 de novembro, na Casa do Alentejo, que foi um dos cenários do filme. Por fim, A Janela (Maryalva Mix), de Edgar Pêra (2001) é exibido, no dia 7 de dezembro, no Grupo Excursionista Vai Tu, na Rua da Bica de Duarte Belo, rua onde foi realizado o o filme.

Cada sessão é antecedida por um visionamento comentado. São exibidos e comentados excertos do filme por músicos, técnicos de som, investigadores do cinema e da cidade, como Filipe Raposo, Manuel Deniz Silva, Nicholas McNair, Sérgio Bordalo e Sá (Lisboa, Crónica Anedótica, de José Leitão de Barros), Bernardo Moreira, Manuel Jorge Veloso, Manuela Viegas (Belarmino, de Fernando Lopes), João Pedro Cachopo, José Bértolo ( Kilas, O Mau da Fita, de José Fonseca e Costa) e Branko Neskov, Edgar Pêra Patrícia Castello Branco, Ricardo Vieira Lisboa (A Janela (Maryalva Mix), de Edgar Pêra).​

19 outubro | BELARMINO, Fernando Lopes (1964) 80′

O 2.º andamento de uma sinfonia é tradicionalmente um adagio, um tempo musical entre o lento e o andante. Belarmino é um filme que rompe com a tradição e pede de empréstimo os ritmos e o swing ao jazz oriundo do Hot Clube de Portugal. Porém é ainda a tonalidade melancólica da banda sonora original de Manuel Jorge Veloso que acompanha o pugilista no seu treino, nas suas esquivas e nas deambulações pelas ruas da baixa lisboeta, não obstante os impulsos libertadores do trompete de Milou Struvay. São ainda os acordes menores e os ritmos de balada que emolduram a fotografia rugosa de Augusto Cabrita e as atmosferas grisalhas das praças e dos bas-fonds enfumarados, numa Lisboa emudecida à espera de redenção.

Grupo Desportivo da Mouraria (Travessa da Nazaré)
15h30 visionamento comentado por Bernardo Moreira, Manuel Jorge Veloso, Manuela Viegas
17h30 projeção do filme completo

9 novembro | KILAS, O MAU DA FITA, José Fonseca e Costa (1980) 124′

Kilas, o Mau da Fita apresenta-se como um filme onde a música é constitutiva à narrativa cinematográfica. Como um terceiro andamento, a sua potência musical é evidente na própria conceção em forma ABA, abertura que é já o final, minueto que se transmuta em tango e em que o grito lancinante da sirene da ambulância se transforma, em retrospetiva, como o anúncio da perda, a ferida que percorre todo o filme e que culmina no solo instrumental da Valsa da Ana. Com música e argumento de Sérgio Godinho, Lisboa aparece através dos seus personagens cuja substância é musical – do Fado do Kilas à Balada da Rita, no início a cappella e na sua conclusão em disco, junta-se-lhe a sonoridade característica de um certo linguajar urbano. A aurora, que abre e fecha este filme, recorta-se no telhado de vidro do único espaço que sobrevive, íntegro, na Lisboa de agora.

Casa do Alentejo (Rua das Portas de Santo Antão)
15h30 visionamento comentado por João Pedro Cachopo, José Bértolo
17h30 projeção do filme completo

7 dezembro | A JANELA (MARYALVA MIX), Edgar Pêra (2001) 104′

No filme A Janela (Maryalva Mix) o som é um elemento excessivo que sugere uma atmosfera tão alegre como o local que personifica – o pitoresco Bairro da Bica, e as personagens que surgem – as variações humorísticas dos Antónios. O filme, marcado por um ritmo inconstante e exuberante que desfigura os sons naturais, apresenta a música popular dos ‘Phados’ compostos por Pedro Ayres Magalhães e Paulo Pedro Gonçalves. Qual 4.º andamento de uma sinfonia, através da montagem de ritmos mais rápidos ou mais melódicos, a montagem audiovisual do filme expõe-se como sendo o próprio moto perpetuo do elevador da Bica.

Grupo Excursionista Vai Tu (Rua da Bica de Duarte Belo)
15h30 visionamento comentado por Branko Neskov, Edgar Pêra Patrícia Castello Branco, Ricardo Vieira Lisboa
17h30 projeção do filme completo


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