Huni Kuin na Fábrica do Braço de Prata

Escrito por em 12/06/2019

O povo Huni Kuin (Kaxinawá) habita a floresta tropical no leste peruano, do pé dos Andes até a fronteira com o Brasil, no estado do Acre e sul do Amazonas.

Huni Kuin, ou “gente verdadeira”, como se autodenominam, no estado do Acre, são a maior população indígena, vivendo atualmente em doze terras ao longo de sete diferentes rios: Purus, Envira, Murú, Humaitá, Tarauacá, Breu e Jordão.

Tendo tido um contacto relativamente tardio com o mundo ocidental, e mesmo após décadas de perseguição no tempo da seringa, conseguiram manter a sua tradição viva. Falam em Hatxa Kuin (“língua verdadeira”) e vivem numa realidade bilingue, comunicando também em português na maioria das aldeias. No entanto, mesmo com essa influência, continuam a praticar os rituais sagrados e pajelanças com a sua medicina tradicional, realizando os batismos das crianças e comemorando as festas dos legumes (“katxanawa”). As medicinas tradicionais do povo Huni Kuin possuem imensa importância para a sua cosmovisão, tendo o uso coletivo da ayahuasca (“Nixi Pae”) um lugar de destaque na sua prática espiritual.

Atualmente a espiritualidade deste povo ecoa pelos quatro cantos do mundo. Um movimento que começou há pouco mais de uma década com a chegada ao Rio de Janeiro de jovens lideranças para realizar cerimónias fora das aldeias, conta hoje com diversas digressões de lideranças espirituais Huni Kuin pelas Américas, Europa, África e Ásia. Inúmeras também foram as exposições sobre esta rica cultura em alguns dos principais museus do mundo assim como a realização de premiados filmes e livros. Estes mensageiros da floresta têm uma importante e positiva mensagem que aponta para um novo tempo, um tempo de reconciliação entre os homens e destes com a mãe natureza.

O isolado e pequeno município do Jordão, no interior do Acre, é uma espécie de ponto de transição entre a cidade e as aldeias mais distantes. De Rio Branco até lá, há apenas dois meios de transporte: barcos, que podem tardar até seis dias a subir o rio, dependendo da época do ano, e dois vôos semanais através de uma empresa de táxi aéreo.

Nesta pequenina cidade, à beira do rio Tarauacá, há um bairro onde reside grande parte da população indígena, e onde há alguns anos foi fundado por um grupo de jovens indígenas o Coletivo Kayatibu. Liderado por uma família que descende de um dos principais pesquisadores e artistas Huni Kuin, Ibã Sales Huni Kuin, o grupo tem por principal objetivo a pesquisa e o desenvolvimento da cultura Huni Kuin, através de estudos da tradição ancestral e projetos de visam a expansão de conhecimentos artísticos e tecnológicos dos integrantes do grupo.

Após alguns anos de atividade, o Grupo Kayatibu tornou-se inspiração para uma série de outros grupos organizados com o mesmo perfil, que atuam nas aldeias. Como uma espécie de revolução cultural do povo Huni Kuin, este amplo processo tem despertado o interesse de muita gente em todo o mundo, resgatando e fortalecendo a arte, a língua, a espiritualidade e os conhecimentos sobre as plantas e a medicina tradicional.

Em 2019, no Brasil, vive-se sob um governo cuja visão política não só ignora a importância das populações indígenas e suas singularidades, como atua sistematicamente de forma a exterminá-las, cultural e fisicamente. É no meio desse dramático contexto que Txana Tuin e Txai Shane, jovens líderes do Grupo Kayatibu, visitam a Europa pela primeira vez, numa missão de sensibilização através de sua arte e sua cultura. Após terem passado pela Irlanda e pela Alemanha, chegam a Portugal no âmbito do Seminário Cultural Huni Kuin que acontece nos dias 13 e 14 de junho, com atividades na Fábrica do Braço de Prata, em Lisboa. A programação visa promover a partilha de conhecimentos da sua cultura ancestral, trazendo a foco também a questão indígena no Brasil e a sua importância a nível global.

Partimos à descoberta do que têm para nos dizer [no vídeo mais abaixo].

QUINTA 13/6
15h00 às 17h00
:: oficina de pintura corporal ::
troca de saberes sobre os kenes e a arte hunikuin
(aberto ao público, contribuição espontânea)

18h00 às 19h00
:: cantoria ::
roda de cantoria com partilha de cantos sagrados da tradição huni kuin
(aberto ao público, contribuição espontânea)

SEXTA 14/6
15h00 às 17h00
:: roda de conversa ::
história, arte, mitologia e pensamento do povo Huni Kuin
(aberto ao público, contribuição espontânea)

18h00 às 20h00
:: roda de rapé ::
cerimónia de introdução à medicina do rapé, à luz da tradição huni kuin
(mediante contribuição mínima de 15 euros)

 


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