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Carolina Paiva: “Eu vim de uma família de feministas”

Escrito por em 24/05/2019

Carolina Paiva é carioca. Começou a sua história no cinema em 1996, com um documentário ainda nos tempos da faculdade. Não vinha ao FESTin desde 2010, ano em que começou a borbulhar a ideia de fazer um documentário com mulheres ligadas pela língua. Regressou este ano com o documentário pronto, a que tão simplesmente chamou “Lusófonas”, e com o qual arrebatou o galardão de Melhor Documentário. São histórias de muitas mulheres, contadas de forma natural, fortes, que nos obrigam a pensar para onde caminha a Humanidade de uma forma geral. A TunetRadio aproveitou para falar com a cineasta nesta passagem por Lisboa.

Como surgiu a ideia para o documentário? Quanto tempo demorou até estar finalizado?
Surgiu em 2010 quando eu vim aqui para o FESTin e vi que tinha uma comunidade de países de língua portuguesa, porque até então, no Brasil, você não tem muita noção da cultura europeia, principalmente portuguesa, que foi nosso colonizador. Temos mais influência da cultura americana. Aí, eu tive a ideia de ver essas mulheres falando. Conversei com algumas em Moçambique, e aí tive essa ideia. Até finalizar, até financiar, foram 8 anos para conseguir rodar e desde então fui rodando: 2010, 2014 rodei um pouco, 2015, e em 2017 e 2018 rodei direto. A gente rodou Angola, Moçambique, Portugal, já com as imagens gravados dos últimos anos.

E as entrevistadas, essas mulheres, como foram escolhidas?
As mulheres foram escolhidas de acordo com o perfil que eu desenhei para ter diferentes classes sociais, diferentes económicas, culturais, para poder ver o universo dessas mulheres, nos seus locais, e poder mostrar a realidade delas de acordo com a sua vida mesmo. Então, tinham de ser diferentes. Mostrando essas mulheres diferentes elas teriam algumas coisas em comum. Foi tudo desenhado da minha parte. A gente pediu para os produtores locais mais ou menos esse tipo de mulheres e, de acordo com o que já vinha do roteiro, eles selecionaram e nós gravamos.

Antes de iniciar esse documentário sobre as mulheres a única especificidade, pareceu-me, foi serem lusófonas.
Eu já tinha uma ideia e eu sou muito curiosa, eu tinha muita curiosidade de saber da vida dessas mulheres. No final a gente vê que todas elas têm os mesmos problemas e são bastante parecidas.

Há histórias muito difíceis nesses 70 minutos de filme. Qual a que mais lhe tocou? Houve alguma particularmente difícil de ouvir? Houve alguma que, pelo pais onde estava inserida, pelo contexto socioeconómico a tenha surpreendido?
Difícil falar, porque de todas essas personagens ainda faltaram algumas e que a gente está querendo fazer uma série de quatro episódios do “Lusófonas”, mas, por exemplo, a Ana Paula, portuguesa, que conta a história de ter sido vítima de violência doméstica por muitos anos e o juiz mandou ela voltar para casa… Aquilo ali me chocava, fiquei muito emocionada. E ela é uma amor de pessoa, estava na pré-estreia. As outras também. A Zita João, lá em Angola, ficou emocionada. Mas isso tudo parece muito com as mulheres do Brasil. Sustentam a casa, moram em comunidades carentes. Tudo isso já tem uma proximidade com o Brasil. É uma luta para essas mulheres no dia-a-dia. Fora a própria deputada [Marisa Matias] que passa por uma situação machista, que não pode ir num jogo de futebol. Todas elas passam por situações de machismo contra as mulheres nas suas classes sociais. Isso é muito forte. São histórias peculiares e muito legais de se contar.

Ser mulher no Brasil nunca foi fácil, mas como está a situação agora? Retrocedeu?
No Brasil, todo o dia tem uma notícia de violência doméstica, sabe? É muito forte, mas com a Lei Maria da Penha [Lei Decretada pelo Congresso Nacional brasileiro e promulgada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva a 7 de agosto de 2006, a lei entrou em vigor no dia 22 de setembro de 2006. Desde a sua publicação, a lei é considerada pela Organização das Nações Unidas como uma das três melhores legislações do mundo no combate à violência contra as mulheres], como fala Hildete Pereira no filme, ela consegue tentar um pouco suavizar essa violência doméstica diária. Todo o dia no jornal tem mulher sendo agredida, agora está mais enfático, surgindo mais nos jornais, agora se fala mais. Estamos tentando ver se melhora, mas com esse Governo que acha que não tem violência contra a mulher, que é uma inverdade, porque em todo o território há muito machismo e o filme tenta mostrar isso, que não é fácil.

E quem é Carolina Paiva? Quem é essa mulher lusófona?
Sou uma cineasta, faço isso desde os 20 anos. Minha família mandava fazer concurso público, não aguentei e ai vim fazendo a minha história, mostrando as histórias do Brasil, do Mundo, mas não é fácil ser cineasta no Brasil. Hoje a gente tem a Ancine [Agência Nacional do Cinema], mas é uma luta diária, há muitas produtoras independentes. Não é fácil. Quando é uma coisa que você ama muito, acaba fazendo naturalmente. Ser essa mulher lusófona é saber da sua cultura, entender os países colonizados por Portugal. Foi muito bacana fazer o documentário porque aprendi muito sobre os países, coisas que lá no Brasil não recebemos. Foi um aprendizado, abri a mente, ser mulher lusófona é uma sorte, poder falar a língua portuguesa em todos esses países, lidar com as mulheres de igual para igual, porque somos iguais no final. O universo pode ser diferente, mas a rotina e os problemas acabam sendo os mesmos.

Nesse mundo maioritariamente habitado por mulheres, tem alguma ou algumas que sejam para si modelos?
Eu vim de uma família de feministas. Eu tenho uma tia que teve um escritório feminista, defendia as mulheres nos anos 70, quase que não tinha no Brasil, no Rio de Janeiro e tudo era igual a agora. As mesmas coisas continuam acontecendo por esses anos. Também ser mulher, mandar em homem no set, não é fácil, tem uns que não aguentam. Aí que eu sou pior ainda [risos]! Quando eu vejo que eles estão incomodados por eu ser mulher sou ainda mais direta, grossa, objetiva. Ser mulher vai ser uma luta para sempre, uma busca da igualdade.


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