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10.º Festin: “Unicórnio”, o tempo interno das descobertas

Escrito por em 22/05/2019

O filme “Unicórnio”, segunda longa-metragem de Eduardo Nunes, contou com a presença do realizador e da atriz Patrícia Pillar no FESTin, em Lisboa.

Antes do início da exibição de “Unicórnio” – que esteve no Berlinale de 2018 – o realizador subiu ao palco e deixou o alerta. “O filme tem o seu tempo próprio. Estamos numa época em que a conectividade e a velocidade não deixam refletir. Aconselho a se deixarem levar pelo filme, que está num universo particular, esquecer o mundo, largar o celular pelas próximas duas horas”. Ao que Patrícia acrescentou: “É um filme que nos transporta, tem que se deixar ir no ritmo que não é de cidade e não é, também, o ritmo de alguém que mora longe. Esse é o tempo interno das descobertas. Ela [a menina, personagem central do filme] encontra na figura do unicórnio o seu semelhante”.

O filme é uma fábula, está situado num tempo incerto, num lugar sem nome, e, ainda assim, acaba por trazer a figura de um ser místico tão em voga nos dias correntes na cultura de massas, o Unicórnio, figura impar, misteriosa, alada.

O segundo filme de Eduardo Nunes juntou dois contos de Hilda Hilst, nome das letras brasileiras, dona de uma literatura do interior, do pensamento, da narrativa fragmentada. O realizador fundiu Matamoros (do livro “Tu Não Te Moves De Ti”) e Unicórnio (Fluxo-floema) para nos permitir ter uma experiência de tempo lento, uma experiência sensorial durante 122 minutos, e daquilo que passa pela cabeça de uma menina de 13 anos, que vive com a mãe, que espera a chegada do pai e que vê outra homem entrar nas suas vidas. Os diálogos são raros, porque o que aqui interessa reter não é a voz, não é o que se diz com palavras, mas com o movimentar dos olhos, das mãos, do corpo todo.

Durante largos minutos não se ouvem vozes. Só vento. Muito vento, essa corrente de mudança e de mau presságio, também. Ele marca o ritmo. O lugar, carregado de amarelo no chão, e tons cinza nos céus, tem essas serras e essa neblina, e uma fantasia silenciosa e borbulhante ao mesmo tempo. Não nos podemos nunca esquecer que estamos no plano do onírico – visualmente, o filme está imaculado. Como se Maria, a menina de 13 anos, nos deixasse entrar em si – e dentro de nós há rebuliço, mas não barulho frenético de diálogos – e é através dela que vemos aquele mundo. Aquelas conversas num lugar surreal com o pai, sobre vida e morte. Para tudo isto, é preciso tempo.

Citando a própria Hilda, nessas palavras encontramos o sentido do filme, e aplaudimos a coragem de Eduardo Nunes ao transpor para o grande ecrã textos tão particulares e de um mundo que não é esse e que em cinema nem sempre é bem recebido, exactamente, porque muitos de nós estamos à espera que nos seja dado tudo. E aqui é dado tanto, para cada um retirar o que quiser, levar e pensar.

“Já escrevi coisas deslumbrantes. Quem não entender, que se dane! Não tenho mais nada a ver com isso. Eu não sinto que esteja num mundo que seja o meu mundo. Devo ter caído aqui por acaso.” (retirado de Antares: Letras e Humanidades vol.6).


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