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10.º Festin: “Boni Bonita”, um vai-e-vem em quatro atos

Escrito por em 21/05/2019

O filme, que contou com a presença de Daniel Barosa no City Alvalade, faz parte da Competição Ficção da edição desse ano do FESTin.

A história não é nova. Dois seres, marginais, em busca de sentir, no corpo ou no espírito, perdidos na vida e enredados nas suas fraquezas. Exposto assim, poderia ser perfeitamente um filme de domingo à tarde, carregado de lágrimas, deixando o chão de uma sala coberto de lenços molhados. Mas o bom é que as personagens não se compadecem com a pena. “Boni Bonita” poderia se chamar A Busca.

Os pouco mais de 80 minutos da película são Rogério, Beatriz e o Tempo, dividido em quatro atos, marcados claramente quando o ecrã fica preto com letras brancas, de 2009 a 2016. Parte do filme foi filmado em 16 mm, o que confere um lado vintage, underground, comida pelo tempo. Daniel Barosa joga também com o foco, deixando os atores, em momentos de transição, enublados. O passar do tempo traz nitidez à tela, aos protagonistas.

Quando o filme começa, Beatriz (Ailín Salas), uma “chica” argentina que se mudou para São Paulo com o pai após a morte da mãe, é menor de idade. Conhece o trintão Rogério (Caco Ciocler), vocalista de uma banda que almeja o sucesso. Só que ele é neto de um dos maiores cantores da década de 80. É o peso da herança e o sair da sombra. Beatriz não é a ingénua Lolita sedutora, Beatriz é alguém quer seduzir e encontrar um abraço, uma profunda órfã do afeto.

É ao som de “Boni Bonita”, a tocar num gira-disco, num sofá verde sem personalidade, no casarão do avó de Rogério, e onde ele habita, que, já bebidos, eles se ligam. Os anos seguintes são conhecimento mútuo e aproximação, de desentendimentos e, por fim, afastamento. Ao longo dos anos, o corpo de Beatriz, antes flagelado por lâminas e pontas de cigarros, vai sendo coberto de tatuagens. Ela, mais do que ele, caminha – ela torna-se mãe, ela constrói aquilo que a morte da mãe levou, uma família (a relação com o pai é catastrófica).

Ele, ao contrário dela, sofre revezes: a chamada da MTV que nunca acontece, a morte do avô, figura sempre presente e nunca visível ao espectador. Ele permanece. Beatriz e Rogério foi um encontro do acaso, duas almas a precisar de amparo. Mas apenas os liga essa fragilidade humana, que de tão frágil, não sobrevive, e nos mostra, de certa forma, que todas as relações nos levam a um ponto e que cada um de nós olha para ela de forma diferente. Beatriz e Rogério são carne e necessidade.

O bom de “Boni Bonita”, além das interpretações do casal, é retratar um tema por demais batido do seu jeitinho, numa filmagem alternada entre o cinema mais hermético, de composição, com um cinema de autor mais próximo do público. Personagens marginais, mas não neuróticas. Um busca por ser, sem lamúrias, afetos diários, vividos de forma pouco convencional, fantasmas partilhados. Um filme sobre as batalhas do dia a dia connosco mesmo e com os outros.


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