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10.º Festin: As Mulheres em “Mãe” e “Lusófonas”

Escrito por em 18/05/2019

A longa-metragem centra a sua narrativa na função de ser Mãe, enquanto o documentário nos dá o relato de várias mulheres, unidas pela Língua.

Entre a longa-metragem “Mãe”, de Adriana Vasconcelos, exibido na quinta-feira por ocasião do FESTin, e o documentário “Lusófonas”, que passou na sexta-feira, há mais coisas, até que os separam, em termos de composição, do que aproximam, mas o facto de ambos se centrarem em vidas de mulheres – além de serem dirigidos por mulheres – acaba por ser mais impactante, juntando-os.

É conhecida desde sempre a luta feminina, por igualdade, por não-discriminação, por isso os tempos atuais, talvez só mais velozes na partilha dos acontecimentos e do espalhar a palavra, não são um caso isolado. Muito já se conquistou, isso é certo, mas o mais que ouvido “falta ainda muito caminho a ser percorrido” é também verdade. Os dois filmes falam-nos de mulheres e das suas lutas. O primeiro, “Mãe”, centra a narrativa em mãe da mãe da mãe da filha, mãe da mãe da filha e mãe da filha, trazendo para o centro da película a função que durante séculos esteve no topo das funções da mulher, sendo muitas vezes a única – a par de dona de casa, como se ambas estivesse, casadas. São três mães distintas, em idades diferentes, cada uma tentando evitar os erros cometidos pela anterior.

A ligação entre Madalena, mãe de Sónia, avó de Júlia e bisavó de Camila, e a sua descendente é cheia de rancor. Sónia foi presa por assassinato, quando descobriu que o ex-companheiro, pai de Júlia, tinha voltado a casa e violentava, naquela noite, a filha de ambos. A cenas de violação e da matança são prodigiosas. A posição do corpo de Sónia, como uma pantera, é uma pintura. Por isto, ela passa anos na prisão. O reencontro com a mãe, a filha e Camila, a neta que é fruto de um ato incestuoso, vai criar momentos de tensão e Ana Cecília Costa é uma mãe confusa, ressentida, angustiada brilhante.

Júlia, por seu lado, criada por Madalena, uma personagem que em português brejeiro apelidaríamos de “velha gaiteira”, tornou-se uma adulta calma, que só tenta que Camila tenha uma vida normal. Ela é tão diferente da avó e da mãe que quase parece saída de outra cenário. Porque Júlia escolheu outro caminho, mas não abandonou e não renegou o lar. É a personagem que traz equilíbrio à trama. O filme ganha pela interpretação dos atores, a história é boa, faltava só que a composição acompanhasse e que Adriana Vasconcelos não intercalasse a filmagem com planos de autor e cinema comercial. Falta algum equilíbrio à longa-metragem nesse sentido.

Carolina Paiva, que não estava no FESTin há nove anos, filme no Brasil, Angola, Moçambique e Portugal, recolhendo depoimentos de mulheres diversas para compor o documentário. Como alerta, como informação útil, dada na primeira pessoa, “Lusófonas” é um belíssimo trabalho. Marisa Matias, deputada europeia pelo Bloco de Esquerda, e a jornalista Diana Andringa, são duas das mulheres que participam no documentário. A jornalista relata, entre outras coisas, como, nascida em Angola, pouco contacto teve com mulheres negras, como as mulheres brancas eram enfadonhas e como o seu olhar já curioso a fez perceber que a vida dos homens, médicos, engenheiros, artistas, era muito mais interessante e que não podia ficar confinada àquele sexo e à brancura da pele.

Um dos relatos mais duros veio daí, de Angola, quando Joana, educadora, conta que naquela casa onde estão a gravar entrou uma menina. Ninguém sabe como entrou porque o portão estava sempre fechado. Entrou, deitou-se num banco. Nessa noite os cães não foram soltos. Na manhã seguinte, quando a encontraram, perguntaram quem era, o que fazia ali. Respondeu que estava cansada, porque em casa o pai a molestava e quando não era o pai, era o irmão. A mãe morrera. Chamaram os serviços sociais, mas a menina desaparecera, não souberam mais dela. Sumira. Este foi um relato na terceira pessoa, mas neste recolher de depoimentos há muito mais e na primeira pessoa. A expressão luta diária não pode deixar de ser repetida, porque foi isso que ali foi mostrado. É isso que une estas mulheres e a sua Língua, o português, fazendo a ligação entre todas elas, muita separadas por milhares de quilómetros de terra e mar. A “Lusófonas” faltou uma melhor escolha de alternância de planos e tratamento no som. Mas as histórias são tão fortes que isso acaba por ser secundário.


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