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10.º Festin: Suster a respiração até ao fim em “Aos Teus Olhos”

Escrito por em 17/05/2019

A 10.ª edição do Festival FESTin abriu este ano no Fórum Lisboa, antigo cinema Roma, e com o filme “Aos Teus Olhos”.

No fim do filme, aquele suspiro seco e rápido. Como quando saímos da água, quando o ar já foi consumido naquele ambiente para o qual os nosso pulmões não foram criados, pelo menos, por longos minutos. Não tem um fim? Não fecharam o assunto? Estas foram as minhas primeiras duas interrogações assim que o “Aos Teus Olhos” terminou. Duraram nano segundos, para logo a seguir compreender que o fim era mais do que essas duas perguntas. Como olhar para o outro quando nos deparamos com uma informação?

“Aos Teus Olhos”, da realizadora Carolina Jabor, abriu a 10ª edição do FESTin – Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa. Este ano, o evento se espalha por três espaços cinematográficos: Fórum Lisboa, onde se deu a abertura, Cinema City Alvalade e o parceiro dos últimos anos, Cinema São Jorge. A casa estava bastante composta para receber mais uma edição. “Aos Teus Olhos” é uma filme simples no encadeamento, nas poucas personagens, mas complexo naquilo que nos traz. Carolina Jabor já tinha dito em entrevistas (o filme é de 2017) que o papel principal era o linchamento e não a pedofilia. Acontece que o linchamento público de Rubens, papel de Daniel Oliveira, advém da possibilidade de ele ter cometido um ato de pedofilia. Alex é um dos seus alunos de natação e é dele que, pela boca da mãe e do pai, se sabe que Rubens o beijou na boca. A directora do complexo, que já trabalha há vários anos com Rubens e em que confia, é aqui a personagem que se debate com a pergunta: Quem fala a verdade? E durante uma hora e meia vivemos no limbo, na dúvida, na possibilidade de. Não há provas – Rubens tinha levado Alex para o balneário naquele dia, para o acalmar, para a conversa não ser perante os seus colegas. Nem para nós que assistimos Alex verbalizou esse acto. Só para a mãe, que é separada do pai, mas pouco se sabe da relação deles. Rubens mostra-nos traços de uma personalidade múltipla, não é só um: os miúdos adoram-no, trata-os bem, é atencioso. Ao mesmo tempo, na privacidade, é por vezes desbocado, não fica totalmente indiferente aos olhares das meninas a entrarem na adolescência, a sua namorada acabou de fazer 18 anos. Este retrato de Rubens é o que temos. A maioria do tempo, Rubens, professor de natação, apresenta-se de tanga, seminu, no seu habitat de trabalho, a piscina. Musculado, bem à vontade com isso.

Sobre Alex, os pais, a directora e até mesmo Rubens nada mais nos é dado. O rápido julgamento do professora começa: o pai conta para a directora, a directora age com pinças, a mãe acha que é pouco, posta no grupo de WhatsApp – que no Brasil é uma ferramenta bastante usada e letal – do WhatsApp passa para o Facebook, o mundo inteiro sabe, Rubens fica atónito, é questionado por Ana, a directora, confessa que levou o rapaz para o balneário, abraçou, acalmou, pode até ter dado um beijo, não foi intencional, ela questiona-o: “Você é gay?”- quando ao pai, no inicio, tinha perguntado: Isso importa?, ele diz que não, a namorada vai até lá, defende ele, outro rapaz, seu ex-aluno, gay, defende-o também, Rubens mostra a Ana que com ela, que também foi carinhosa com alunas antes, o problema nunca se colocou, mas com ele sim, por ser homem, a policia o interroga, porque o pai apresentou queixa, sem provas, sem dados, no carro escrevem na lateral “PEDÓFILO”, é assim que ele vai para casa, nervoso, a suar, ‘esgazeado’, os alunos deixam de ir à aula, ele decide que vai dar aula, sai de casa, chega ao complexo, é empurrado, bate com a cabeça no chão, parte a cabeça, caminha até à piscina com a cabeça a escorrer sangue, despe-se, prepara tudo.

A interpretação de Daniel Oliveira tem os tempos certos, a ambiguidade necessária, ajudada por planos mais fechados – quando ele, por exemplo, vê as mensagens na internet só a luz do telemóvel incide na sua cara. São clichés, mas que ajudam a construir essa vontade da realizadora querer o espectador como interveniente. Ele é dedicado às crianças, mas másculo também. Ana, a directora, interpretado por Malu Galli, faz-nos sentir as dúvidas, que com o passar do tempo se adensam. Ainda assim, ela não o julga, mas na cara espelha a dúvida. Ela é a balança nesse enredo.

O filme tem um tempo lento, ainda que os acontecimentos sejam rápidos, fulminantes, sem que Rubens – que a certa altura da história nos deixa a pensar que o que quer que diga será sempre usado contra si – consiga sair da espiral. O fim da história do linchamento não o sabemos. Antigamente, o linchamento público era local, hoje é global. A possibilidade de ele gostar de homens é, ainda, um grave problema no Brasil. Aqui, não só há um caso de possível pedofilia, como de homossexualidade. Carolina Jabor deixa-nos várias perguntas para levar para casa. Valerá sempre mais a palavra de uma criança num caso destes? (uma criança não mente, dizem. Mas as crianças inventam muito, dizem também). Como tirar a limpo? Como evitar sermos fulminados por palavras? Porque, na realidade, Rubens pode ser qualquer um de nós.


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