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Óvni jazz de Salvador Sobral ‘aterra’ no Coliseu

Escrito por em 12/05/2019

Do camarote presidencial como ponto de partida, deslizando com estilo pelo público, numa performance bastante teatral na interpretação de “180, 181 (Catarse)”, até ao palco, com a entrada conjunta do quarteto base de músicos – Júlio Resende (piano), André Rosinha (contrabaixo) e Bruno Pedroso (bateria) –, Salvador Sobral, no seu primeiro Coliseu dos Recreios da carreira (descontando a final do Festival da Canção em 2017), concretiza uma conquista gradual mas avassaladora.

Músico e intérprete excecional, Salvador Sobral dispensa grande léxico de apresentação, independentemente de ter ganho a Eurovisão, da famosa operação ou o casamento com a atriz francesa Jenna Thiam. Nada disso interessa, a música vale por si, e o ponto de partida para estes dois Coliseus – primeiro Lisboa a 10, depois o Porto a 11 – foi o honesto, belo e cinematográfico segundo álbum “Paris, Lisboa”, aqui ampliado e tocado quase integralmente.

Vermelhos, azuis, amarelos e focos brancos muito sólidos, sem qualquer fumo (possivelmente por motivos de saúde, mas foi uma ótima opção) e um som incrivelmente bem definido (o que nem sempre acontece no Coliseu dos Recreios) ajudaram a estabelecer a atmosfera perfeita para um concerto singular.

Depois de “Change” e “Cerca Del Mar” as luzes incidem sobre o público e revelam a entrada tardia de dezenas de pessoas. Nisto Salvador repreende alguém com ironia “eu convido-te e tu ainda chegas tarde”. O músico confessa-se “bastante nervoso” há duas horas, assumindo que o “voltar a casa e ter o Coliseu cheio é um privilégio”.

“Presságio”, com base nas palavras de Fernando Pessoa e nos arranjos verdadeiramente geniais do pianista Júlio Resende que potenciam a voz de Salvador Sobral, termina com um “para saber que estão a amar”, pedido ao público, e cantado em uníssono.

À imagem da “inspiração proporcionada pela cantora catalã Silvia Pérez Cruz”, entra em ‘cena’ um quarteto composto por uma violoncelista e três violinistas (que se juntam ao contrabaixista num quinteto exclusivo de cordas). Salvador brinca com o facto das quatro primeiras convidadas, generosamente, “terem aceitado tocar de graça”. E é com encanto que recriam “Grandes Ilusiones”.

“A minha irmã é como se fosse uma Telepizza”. Salvador explica que Luísa criou em 50 minutos “Estrada Dividida”, uma música inédita com base na saudade e nos reencontros de Salvador com a esposa, que vive em Paris – de filosofia idêntica a “Paris, Tokyo II”, presente no álbum lançado em março último.

O lindíssimo arranjo de Filipe Melo para o tema quase que nos levita. “O meu pai está a chorar. Ou a minha mãe acabou com ele ou a música era bonita”, afirma divertido antes de interpretar “La Soufflouse” a culminar numa ovação total após um solo de bateria estonteante – se existia alguma dúvida sobre a singularidade do concerto, a mesma esfuma-se neste preciso momento.

“No corpo e na alma estava um coração…”, leia-se o final de “Benjamim”, entoada pelo público, em mais um momento de comunhão, exceto a mãe de Salvador que parece não apreciar o “jogo do público cantar”.

Segue-se “Mano a Mano”, em dueto com António Zambujo, apresentado incognitamente como sendo a sua voz preferida. Estamos perante harmonias perfeitas, de ir às lágrimas, com um som fabuloso entre o piano de Resende e as incríveis vozes de Sobral e de Zambujo. Mais um momento pontuado por aplausos de pé.

“Agora segue-se um ‘mash up’ de “Pica do 7” e “Amar Pelos Dois”!”, brinca Salvador, depois de ter dito que Zambujo até tinha “cumprido” e por isso “tocariam mais uma”. A escolhida recai sobre “Só Um Beijo”, tema de Luísa Sobral, resultando em nova ovação, de pé.

Sem tempo a perder, Salvador ajuda a levar as partituras para a lateral do palco: “as pessoas estão à espera”. Um momento delicioso “roadie de si próprio”, bastante terra-a-terra, que se repetiu diversas vezes ao longo da noite. Segue-se um grande momento de improvisação em que Salvador canta em estilo hip hop para o microfone do piano no tema “Playing With The Wind”.

Com o concerto a aproximar-se do final, Salvador elogia um público que raras vezes levanta os telemóveis para filmar e que respeita as pausas e silêncios pedidos pelas músicas. “Nada como tocar para vocês, a cidade que me viu nascer (…) há discos lá fora, mas não comprem, já fizeram a vossa parte ao estar aqui”. ‘Stand up’ Sobral constante, a cada interlúdio, e ainda bem. A boa onda e a alegria de viver estão patentes a cada momento.

O bolero “Ay Amor” transforma-se em mais um momento fabuloso, com Salvador a cantar sem microfone no meio do público e gradualmente a aproximar-me do palco, para regressar dentro do tempo da música. Poucos segundos separam o concerto do habitual encore: “não queria dar o sinal errado e que vocês perdessem o momento especial que se segue”: “Amar Pelos Dois” numa versão com cordas, aproveitando a presença do quarteto feminino, mas dispensando o baterista.

Da colaboração de Júlio Resende e João Monge surge um inédito de piano e voz, que une o pianista a Salvador Sobral. “Uma pessoa sente que já chegou quando há citações do público”, afirma o cantor antes de chamar o músico e compositor de alguns dos temas de “Excuse Me”, Leonardo Aldrey, para tocarem e cantarem “Anda Estragar-me Os Planos” (tema de Francisca Cortesão e Afonso Cabral que Joana Barra Vaz interpretou no Festival da Canção 2018 e que Salvador resgatou para tema-final de “Paris, Lisboa”) como se estivessem nas ruas de Barcelona, no meio do público, aos saltos, numa belíssima celebração. Grande fim de festa.

Felizmente a RTP, a mesma de “Eléctrico”, a mesma que gravou os 40 anos dos UHF na Aula Magna, está cada vez mais atenta ao meio musical, à semelhança do verdadeiro serviço público da BBC, no Reino Unido, filmando o concerto para posterior exibição. Apesar de alguns deslizes caricatos – chegadas tardias ou dificuldade em captar Salvador Sobral no meio do público (que também não lhes facilitou minimamente a tarefa) – estamos perante notórios sinais de mudança.

Salvador Sobral também mudou apesar de na essência permanecer o mesmo músico que tanto está feliz numa sala da Fábrica do Braço de Prata como num recinto com milhares de pessoas. Só podemos agradecer e fazer votos que nos continue a surpreender durante longos anos.


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