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Mark Knopfler nostálgico com a última digressão

Escrito por em 01/05/2019

Com a sala lotada, poucos minutos passam da hora prevista, as 21:00, e Mark Knopfler é apresentado com pompa e circunstância por um sósia de pajem da rainha Isabel II. “Nobody does that” e “Corned Beef City (ain’t too pretty)” abrem um concerto em que o mentor e vocalista dos Dire Straits parece um pouco distante – ou estará apenas “nostálgico”?

Down the Road Wherever”, nono álbum de estúdio lançado a 16 de novembro de 2018, constitui o mote para a digressão de despedida “An Evening With Mark Knopfler and Band”. Guy Fletcher (teclados), Richard Bennett (guitarra), Jim Cox (piano), Mike McGoldrick (flauta), John McCusker (violino), Glenn Worf (contrabaixo e baixo), Danny Cummings (percussão), Ian Thomas (bateria), Graeme Blevins (saxofone) e Tom Walsh (trompete) compõem a banda que o acompanha, alguns deles há vários anos, músicos de topo, seguríssimos.

O recorte de luz, entre azuis e vermelhos, com dois holofotes fixo em Mark Knopfler é simples, mas bonito. À quinta data da extensa digressão, até ver, todas na Península Ibérica – ainda falta Corunha e Pamplona – seguindo-se depois França, Suíça, Itália, Alemanha, Reino Unido, Irlanda, Noruega, Suécia, Dinamarca, Luxemburgo, Bélgica, República Checa, EUA, Canadá, entre outros, o alinhamento apresenta poucas alterações, pontuado por muitos clássicos e algumas raízes de uma longa carreira.

A Altice Arena continua a não ser o local com a acústica ideal para concertos de músicos tão tecnicistas. Mas nos temas mais calmos a coisa lá vai escapando. Quando os decibéis sobem de intensidade, o aglomerado de sons torna os instrumentos e a voz quase impercetíveis, com os reflexos do costume em temas como “Sailing To Philadelphia” ou “Once Upon a Time In The West” (o primeiro original dos Dire Straits ouvido esta noite…).

Músico de voz macia que nos habituámos a ouvir no gira-discos lá de casa, a ver em VHS, DVD ou pontualmente ao vivo, e que atravessou gerações – ainda que a esmagadora maioria dos espectadores esteja na casa dos quarentas a sessentas – eu, presentemente com 43, lembro-me de saber que um determinado concerto ia dar fora de horas na RTP e de me escapar do quarto para o ver e gravar. A entrada de “Romeo and Juliet” fez-me viajar até esse momento de prolongadíssimas ‘slide guitar’ e solos que pareciam não ter fim. Havia muita música nos Dire Straits. E os anos 80 teriam sido certamente diferentes sem eles.

Neste concerto não há ecrãs, algo que pitosgas como eu lastimam. Pelo menos não será certamente este concerto, com esta acústica longa da perfeição a ser registado para memória futura (com a exceção dos milhares de telemóveis no ar, cujos vídeos vão aparecer por estes dias no YouTube e no Facebook…).

Mark Knopfler confessou ter andado à boleia pela Grécia, por Portugal, por “todo o lado em novo, apenas com uma guitarra”. Relembra outras passagens mais “enérgicas”, como o estádio de Alvalade, pelo nosso país. O regresso às raízes celtas da cidade natal, Glasgow, e da de criação, Newcastle, faz-se com temas como “Matchstick Man” ou “Done With Bonaparte”.

“Aqui está uma banda de génio e eu sou apenas um gajo com sorte”, ironiza. As músicas fluem, escorreitas, e pontualmente lá se elevam os telemóveis para registar um ou outro clássico como o efusivamente aplaudido “Your Latest Trick” (mais um dos Dire Straits). Entre outros temas escutados incluem-se “Heart Full of Holes”, “Silvertown Blues” e “Postcards from Paraguay”, de diferentes fases de uma carreira que o próprio assume como errante (se alguns escorrem azeite, outros até são bastante dignos…).

On Every Street”, “Telegraph Road” e “Money For Nothing” (esta já no encore), com os telemóveis ao alto como o Instagram ‘manda’, traduzem-se nos momentos mais aplaudidos da noite, todos, adivinharam, dos Dire Straits, e a respeitarem a traça original – poucos abriram os cordões à bolsa para ouvirem cá devaneios ou reinterpretações.

Os aplausos são quase ensurdecedores e só param com as palavras “I Want My MTV”, de Sting, em crescendo. “Money For Nothing”, o single mais popular de “Brothers In Arms” (1985), foi também um vídeo de enorme popularidade e elevada ‘rotação’. Telemóveis no bolso, está na hora de debandar até casa, mesmo perdendo um solo simultâneo de duas baterias – tudo para evitar as filas. O final faz-se ao som do icónico “Going Home”, de “Local Hero” (1983). O tempo pareceu congelar por instantes, neste regresso às origens da sua carreira a solo.

Duas horas e dez minutos de um concerto que muitos descreverão como um dos melhores que (quase) viram na vida (não fosse a falta de dois ecrãs laterais que tanto teriam ajudado à dita… visão). Será mesmo um até sempre, Mark?

Alinhamento
“Nobody Does That”
“Corned Beef City”
“Sailing to Philadelphia”
“Once Upon a Time in the West” (dos Dire Straits)
“Romeo and Juliet” (dos Dire Straits)
“My Bacon Roll”
“Matchstick Man”
“Done With Bonaparte”
“Heart Full of Holes”
“She’s Gone”

“Your Latest Trick” (dos Dire Straits)
“Silvertown Blues”
“Postcards from Paraguay”
“On Every Street” (dos Dire Straits)
“Speedway at Nazareth”
“Telegraph Road” (dos Dire Straits)

“Money for Nothing” (dos Dire Straits)
“Going Home”


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